SBEC realiza reunião em Teresina


A última semana marcou mais um momento importante para realização do IV Congresso Nacional do Cangaço a se realizar no município de São Raimundo Nonato, no Piauí. Para ultimar os preparativos estiveram em Teresina, o Presidente da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço; Dr Benedito Vasconcelos e os Diretores da Entidade; Paulo Gastão, Aderbal Nogueira e Tomaz Cisne.

 Wilson Seraine recebe SBEC para reunião de trabalho: IV Congresso Nacional
 

O encontro aconteceu na residencia do pesquisador e colecionador, Wilson Seraine, e contou com as presenças de Leandro Cardoso, Marcos Damasceno, Luciano Klaus, dentre outros colaboradores na capital piauiense. O tema do IV Congresso Nacional do Cangaço será "Caatinga: patrimônio natural e cultural". 

Fotos: Luciano Klaus

O Velho Guerreiro Por:Marcos Dasmaceno

Paulo Gastão ao lado de Ingrid Alidiane e Mabell Sales, no Cariri Cangaço

Paulo Gastão, figura lendária da pesquisa do Brasil rural, da história do povo. Notável e relevante pesquisador da história do Cangaço; um dos ícones.
Indiscutivelmente, um monumental homem da pesquisa. Sua história é rica e longa, com larga lista de serviços prestados à sociedade. Uma trajetória incansável, desafiadora. Um missionário; todo missionário é um predestinado. Um iluminado. A história da pesquisa do Cangaço se confunde com sua história de pesquisador. Ele é uma legenda.
Construtor histórico. E, o mais admirável é que está sempre realizando novos projetos. Não aceita a imposição da vida, da natureza, de que idoso é - inevitavelmente - sinônimo de fragilidade, invalidez e sedentarismo. Está em pleno movimento e atuação, e a todo vapor. Vive a vida com a mesma intensidade de um jovem. Espiritualmente ele é um jovem. O vigor dele é admirável.

Paulo Gastão e a família Cariri Cangaço em Juazeiro do Norte
Paulo Gastão é um homem de causa. Um homem de história. Um homem de compromisso. Um homem de convicção. Atuante e exemplar. Exemplo de vida. Uma escola. Para nós, ele é uma escola. Essa figura mítica faz parte de nossas vidas, e fazemos parte da vida dele. Nossa grande bandeira; nosso mestre.
Ele não é uma pessoa; é uma plataforma, uma marca. Ele é único, incomparável e insubstituível. Vou além: pesquisador da magnitude dele, está em extinção. Não se pode considerar PAULO GASTÃO sem lhe reconhecer a experiência, a contribuição, a história.
Ele não é folha seca, que qualquer vento carrega. Ele é tronco de jatobá em beira de riacho, que suporta a força de qualquer enchente devastadora. Tronco bem enraizado e plantado no terreno de Deus.
Marcos Damasceno, pesquisador e escritor
Teresina - PI

E vem aí...

Lugares Esquecidos !!! Caminhos da Reportagem ... Por:Bianca Vasconcellos

Bianca Vasconcellos é jornalista há 30 anos. Trabalhou como repórter de TV, cobrindo os principais casos de polícia, corrupção e crimes financeiros no Brasil. Desde 2011 dirige documentários jornalísticos para o programa Caminhos da Reportagem na TV Brasil, a emissora pública da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Pós-graduada em textos de ficção literária pelo Instituto de Educação Superior (ISE) escreveu o livro “Peças Íntimas”, a ser publicado.
Com “A Mão de Obra Escrava Urbana” e “Carandiru, as marcas da intolerância” ganhou Menção Honrosa no Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos – 2012 e 2013 respectivamente. “A Mão de Obra Escrava Urbana” foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.
O programa “O Vale do Paraíba” venceu o Prêmio IEV de Mídia Cultural de 2012. Em 2013 o documentário “Medicina do Futuro, realidade ou ficção?” venceu o Prêmio SINDHRio e “A Vida por um Fio” foi um dos três finalistas no Prêmio Roche  de Jornalismo em Saúde 2013/Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Iberoamericano.
Imperdível !
Tv Brasil apresenta: Lugares Esquecidos em,
Caminhos da Reportegam
Em Breve...


Fonte: Youtube

O fim de Virgulino Lampião " O que disseram os Jornais Sergipanos Por: Archimedes Marques



A obra em comentário, de autoria do pesquisador e escritor Antônio Correa Sobrinho, ilustre e nobre sergipano de Aracaju, Auditor-Fiscal do Trabalho, Bacharel em Direito formado pela UFS no ano 1985, busca mostrar em texto simples, mas de boa qualidade e de rápido entendimento, o exaustivo trabalho da sua pesquisa junto ao Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e a Biblioteca Pública Epifânio Dória na nossa capital, Aracaju, para trazer a público tudo que fora dito nos Jornais escritos de Sergipe sobre a carnificina de Angicos ocorrida em 28 de julho de 1938, prosseguindo em matérias e artigos, pós-morte de Lampião junto com a sua amada Maria Bonita e nove dos seus seguidores cangaceiros, até o real fim do ciclo do cangaço, com a atroz vingança a inocentes e posterior morte do temível Corisco, culminando com a entrega espontânea às autoridades constituídas contemporânea, dos tantos remanescentes egressos dos diversos grupos de Lampião.

O autor do livro mostrou toda a sua perspicácia e perseverança ao romper meses de trabalho de pesquisa debruçado nos velhos arquivos público da capital sergipana e além fronteira, em trabalho exaustivo que reúne num só instrumento as noticias publicada no calor dos fatos, no clamor e na efervescente alegria de muitos, na loucura popular por onde passava os tristes e deprimentes troféus, as 11 cabeças dos vencidos, o torpor das autoridades em se ver livre daquele que por certo foi o maior dos bandoleiros que o Brasil já viu, odiado e temido por muitos, amado e adorado por tantos outros.

Importa dizer que o conjunto da presente obra, no seu âmago prova que o autor é também um amante desse tão intrigante e fascinante tema que nunca se esgota, jamais morre, ao contrário, nasce e renasce e afeta boa parte da sociedade brasileira sempre com novas descobertas, apesar dos 71 anos em que se comemoram o final da era dos bandoleiros dos sertões, os famosos cangaceiros, atrozes bandidos sanguinários para muitos e aplaudidos justiceiros para tantos outros.

Antônio Correa Sobrinho

É de fácil entendimento ao leitor, até mesmo ao mais leigo dos leigos, notar pelas primeiras noticias veiculadas nos Jornais sergipanos, que pela lógica, também foram estas equivalentes às matérias diversas pelo Brasil afora, que a polícia volante detentora do massacre ao bando de Lampião, comandada pelo tenente João Bezerra, logo tratou de enaltecer ainda mais os seus próprios méritos, ao alardear em ampla divulgação que o bando de cangaceiros que resistiu ao ataque era composto por um número superior a 55 componentes e que houve naquele momento um bom tempo em troca de tiros, quando na verdade, o grupo era bem menor e praticamente não houve troca de tiros, apenas alguns tiros de revide à surpresa absoluta arquitetada pela polícia, e além de tudo, o chefe maior do cangaço logo fora atingido mortalmente, fazendo assim, com que os seus comandados arrefecessem os animus e desesperados fugissem para salvarem as suas próprias vidas.

Afora os exageros de estilo policial, as sensacionais informações germinadas na efervescência dos fatos, noticiadas nos já extintos Jornais sergipanos: Correio de Aracaju, O Nordeste, A Folha da Manhã, Sergipe Jornal e O Clarim (os primeiros editados em Aracaju e o último na cidade ribeirinha de Propriá), fizeram sucesso, entretanto, não há como deixar de se destacar os excelentes textos literários, desprovidos de emoções populares, dos jornalistas ou escritores Costa Rego, Mario Cabral, Namyro, L. Campos Sobrinho, Graciliano Ramos, Freire Ribeiro, Ângelo Sibela, E. Maia e Alvarus de Oliveira, destarte para o emocionante e brilhante artigo sobre a gangaceira Maria Bonita, escrito pelo Ângelo Sibela, publicado no Correio de Aracaju, em 27/10/38.


O livro é fechado com chave de ouro, ao ser publicada a sensacional e importante reportagem intitulada LAMPIÃO EM CAPELA, assinada pelo jornalista e escritor, Zózimo Lima, então correspondente do Correio de Aracaju, presente naquela memorável data do dia 25 de novembro de 1929, em que Lampião chegou até a assistir um filme no cinema daquela cidade.

Para mim, não resta dúvidas, que a presente obra literária informativa e histórica, disso tudo compilado, por certo servirá de parâmetro e ajuda para surgimento de novos livros, escritos por novos ou velhos autores, sobre a continuidade desse tema que canta e encanta e que é sem sombras de dúvidas, de inesgotáveis fontes, jamais saturado, sempre em busca da verdade absoluta dos fatos que marcaram para sempre a história dos sofridos, mas fortes e valentes, nordestinos.

Em assim sendo, não só recomendo a leitura do livro, como entendo ser necessário colecionar a referida obra em toda boa biblioteca, como sendo de excelente fonte de pesquisa e aprendizado, para tanto, sugiro a sua aquisição através contato via endereço de e-mail com o autor Antonio Corrêa Sobrinho: tonisobrinho@uol.com.br

Archimedes Marques (Delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Publica pela Universidade Federal de Sergipe)
Pesquisador, Escritor - Conselheiri Cariri Cangaço
archimedes-marques@bol.com.br

Cariri Cangaço Princesa 2015

Cariri Cangaço Princesa 2015
Programação Completa

19 de Março de 2015
Quinta-Feira
19:00h 
Abertura Oficial – Acqua Clube Hotel
Solenidade de Homenagem do Cariri Cangaço
Às Personalidades e a Canhoto da Paraíba
Apresentação do Grupo Cultural Abolição
Palavras das Autoridades
Manoel Severo – Cariri Cangaço
Benedito Vasconcelos – Presidente da SBEC
Narciso Dias – Presidente do GPEC
Prefeito Domingos Sávio

19:40h 
Conferência: Território Livre de Princesa
Conferencista: José Romero Cardoso
Moderador: Wescley Rodrigues
Debatedores: Paulo Mariano e Juliana Pereira

23:00h
Seresta Homenagem Canhoto da Paraíba
Praça Nathália do Espírito Santo


20 de Março de 2015
Sexta-Feira
08:30h - Saída para São José de Princesa
9:00h - Visita ao Casarão de Patos de Irerê
9:50h - Visita a Casa de Marcolino Diniz
10:30h - Visita a Capela de Patos de Irerê
Conferencia: "Marcolino e Virgulino –
Elos de um Passado Presente”
João Antas
Moderador: Ângelo Osmiro
Debatedores: Jorge Remígio e José Cícero Silva

15:00h - Retorno a Princesa Isabel
15:30h - Visita ao Palacete do coronel José Pereira 

19:30h - Grito Rock Princesa
Praça Nathália do Espírito Santo

21 de Março de 2015
Sábado
9:00h – Local – Acqua Clube Hotel
Apresentação da Cia de Teatro Sound Clash
Conferencia: Maria de Lampião e 
as Mulheres no Cangaço
João de Sousa Lima
Conferência: 100 anos da Prisão de Antônio Silvino
Geraldo Ferraz
Debatedores: 
Aderbal Nogueira 
Archimedes Marques
Narciso Dias
Emmanuel Arruda

14:30h - Saída para Nazaré do Pico em Floresta

15:30h - Visita à Vila de Nazaré do Pico,
Visita ao Monumento em homenagens aos Nazarenos,
Visita ao Monumento a João Gomes de Lira,
Visita ao Cemitério onde repousam os Nazarenos,
Visita à fazenda Poço do Negro
 Hildebrando Ferraz Neto (Netinho)
Euclides Ferraz Neto e Ulisses Ferraz

18:00h – Retorno a Princesa Isabel

Noite de Encerramento com Show 
Seu Pereira e Coletivo 401
Sansaruê





Atenção...
Veja onde ficar em Princesa Isabel...
Imagens do Hotel Oficial do Cariri Cangaço Princesa 2015 - Acqua Clube

1)    Acqua Clube Hotel (Tel: 83 – 9861-9056)
HOTEL OFICIAL DO CARIRI CANGAÇO PRINCESA 2015
Endereço: Rodovia Estadual – Entrada principal de Princesa, via Paraíba.
 Quarto completo com Ar, Tv, Frigobar          
R$ 35,00 (trinta e cinco) por pessoa
 R$ 60,00 (sessenta reais) o casal.

OBS: A pousada possui Restaurante, Academia, Parque aquático, Estacionamento, Internet Wi-Fi, Campo de Futebol.

2)    Pousada Ideal (valores por pessoa) – (Tel: 83 – 9604-0393)
Endereço: Rua São Roque – Entrada principal de Princesa, por Pernambuco, via Flores. Localizada no Posto Ideal. 
Quarto com Ar – R$ 40,00 (quarenta reais)
Quarto com Ventilador – R$ 30,00 (trinta reais)
Quarto Completo, com Ar, TV, Frigobar – R$ 50,00 (cinquenta reais)

Obs.: Existe abatimento para grande quantidade de pessoas; está incluído café da manhã, para todas as categorias; todos os quartos possuem banheiros; A pousada tem restaurante e serve, além do café, almoço e jantar.

3)    Pousada São Miguel (valores por pessoa) – (Tel: 83 – 9906-7657)
Endereço: Bairro Maia 
Quarto com Ventilador –R$ 20,00 (vinte reais), com café da manhã.
Quarto com Ar – R$ 25,00 (vinte e cinco reais), com café da manhã.

4)    Pousada São Roque (valores por pessoa) (Tel: 83 – 9971.1151)
Endereço: Rua São Roque, próximo aos Correios.

Quarto com Ar – R$ 30,00 (trinta reais), com café da manhã.
Quarto com Ventilador – R$ 25,00 (vinte e cinco) com café da manhã.

5)    Pousada São José (valores por pessoa) (Tel: 83 – 9901-5824)
Endereço: Praça Coronel José Pereira, Centro. 
Em Frente à Igreja Matriz.
 Quarto com Ar – R$ 25,00 (vinte e cinco reais), com café da manhã.
Quarto com Ventilador – 20,00 (vinte reais), com café da manhã.

 Faça já sua reserva e seja 
bem vindo ao Cariri Cangaço Princesa 2015.

Vem aí Cariri Cangaço Princesa 2015 !!!

O Conselho Curador do Cariri Cangaço; 
A Prefeitura Municipal de Princesa Isabel; 
a Prefeitura Municipal de São José de Princesa; 
a SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço; 
o GPEC - Grupo Paraibano de Estudos do Cangaço e 
o GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará, 
APRESENTAM a abertura da agenda 
Cariri Cangaço para 2015...

Programação LOGO MAIS

Marcolino e Lampião: Ligações Perigosas... Por:Romero Cardoso

Marcolino Diniz, ao centro, sentado.

Quando dos festejos do réveillon do ano de 1923, em Triunfo (PE), acalorada discussão envolvendo Marcolino Pereira Diniz e o magistrado local, de nome Dr. Ulisses Wanderley, resultou em tragédia, pois o primeiro, filho do poderoso "Coronel" Marçal Florentino Diniz, também sobrinho e cunhado do "Coronel" José Pereira Lima, chefe político de Princesa, alvejou o juiz, seguindo-se ainda disparo efetuado por homem da confiança do caboclo Marcolino, conhecido por Tocha. O magistrado ainda conseguiu reagir, atirando em Marcolino.

Raciocinando sobre a dimensão do fato, não restou outra alternativa ao guarda-costa de Marcolino a não ser escapar da grande enrascada em que se meteram. Marcolino foi preso, sendo constantemente ameaçado pelos familiares e amigos do magistrado assassinado.

Pressentindo o imenso perigo que o filho corria, o "Coronel" Marçal Florentino Diniz recorreu aos préstimos de Virgulino Ferreira Lampião para retirar Marcolino da cadeia em Triunfo. Lampião e seu séqüito composto de oitenta homens cercaram Triunfo e exigiram a imediata libertação do prisioneiro, o que foi prontamente atendido pelas autoridades locais.

Kydelmir Dantas, Múcio Procópio, Manoel Severo, Romero Cardoso e Antonio Vilela

Levado a Princesa, Marcolino recuperou-se do tiro que sofreu. Recrudescia a antiga amizade entre Lampião e Marcolino. Fotos históricas retrataram Lampião e seus "cabras", no ano de 1922, na Fazenda da Pedra, propriedade de Laurindo Diniz, irmão do "Coronel" Marçal Florentino Diniz. Portanto, era bem firmada a relação de coiterismo que foi estabelecida na região serrana, fronteira do Estado da Paraíba com o Estado de Pernambuco.

Nos meses seguintes, já no ano de 1924, houve combates intensos entre cangaceiros e volantes pernambucanas. Entre Conceição do Piancó (PB) e São José do Belmonte (PE) Lampião foi ferido no tornozelo, passando péssimos momentos em razão da gravidade do estrago que o projétil provocou.Dias se passaram até que chegou ao conhecimento de Marcolino a situação que o importante aliado estava passando. Foi enviado grupo de resgate, comandado por Sabino Gório, para resgatar o cangaceiro. Lampião foi levado para o reduto de Marcolino, o lugarejo de Patos de Irerê, localizado a cerca de 18 km de Princesa (PB), no sopé da serra do Pau Ferrado. Duas propriedades de Marcolino " a Manga e o Saco dos Caçulas " eram antigos valhacoutos de Lampião e seu bando, há tempos imemoriais.

O cangaceiro-mor, substituto de Sinhô Pereira no comando do grupo que liderava antes da retirada para o Estado do Goiás, foi tratado por dois médicos contratados por Marcolino. Chamavam-se Dr. José Cordeiro e Dr. Severiano Diniz, sendo este último parente próximo do homem que foi imortalizado com a esposa por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira em belíssimo baião por título"Xanduzinha". Distante de princesa, a cidade de Sousa vivia clima de ebulição. Disputas políticas resultaram em tragédias, como a que envolveu o embate no barracão do "Coronel" João Pereira, em Nazarezinho (PB), então distrito sousense.

O cangaceiro Chico Pereira


Filho do "Coronel" João Pereira, de nome Francisco Pereira Dantas, sentiu o peso da moral sertaneja, desprezando conselhos do pai, o qual faleceu exigindo que não se vingassem. Assassinou o único sobrevivente dos que atacaram o velho patriarca em seu estabelecimento comercial. Conversas a boca miúda diziam que os mandantes da morte do "Coronel" João Pereira eram pessoas importantes da sociedadesousense, como o destacado e influente cidadão de nome Otávio Mariz.

Em um dia de feira em Sousa, Otávio Mariz notou animada conversa entre um bodegueiro de Nazarezinho (PB), de nome Chico Lopes, e "cabra" da inteira confiança de Chico Pereira, de nome Chico Américo. A duração da conversa despertou a desconfiança de Otávio Mariz. Nas bancas da feira procurou uma chibata para comprar, indo ao encontro dos dois palestrantes. Encontrou apenas Chico Lopes. Aplicou-lhe surra magistral e pediu-lhe para ir à fazenda Jacu, reduto dos Pereira Dantas, em Nazarezinho (PB), avisar a Chico Pereira que tinha outra prometida para ele.

No Jacu, Chico Lopes detalhou todo acontecido. A família do "Coronel" assassinado perguntou-lhe o que ia fazer, tendo Chico Lopes respondido estar decidido ir até Princesa, conversar com Lampião sobre o melindroso e humilhante assunto. Havia um irmão de Chico Lopes que integrava o bando de Lampião há alguns anos. Isso facilitou a decisão do chefe supremo do cangaço em enviar dezessete homens de sua confiança para Nazarezinho. Antônio e Levino Ferreira, bem como Meia-Noite e Sabino Gório, também integravam o grupo que iria se responsabilizar pela mais aviltante ação cangaceira no Estado da Paraíba.

Caravana Cariri Cangaço em visita a casa de Chico Pereira no Jacu - Nazarezinho, Paraíba

Notícias corriam céleres, dando conta da aproximação do grupo cangaceiro. Em Sousa alguns aventavam a hipótese de organizar defesa, mas como não acreditaram na possibilidade de tamanha ousadia, relaxaram completamente. Ao chegar ao Jacu, os dezessete homens foram recepcionados efusivamente. O número final de bandidos prontos a atacar Sousa, aumentado com muitos da região, somava oitenta e quatro quadrilheiros dispostos. Antes do amanhecer do dia 27 de julho de 1924, os bandidos cortaram a linha do telégrafo e invadiram Sousa, cuja maioria da população foi pega totalmente desprevenida. Pequena resistência partiu da residência de Otávio Mariz, principal alvo dos atacantes. Experiente e tarimbado sertanejo, Otávio Mariz escapuliu quando viu que não poderia resistir ao implacável ataque.

Tudo em Sousa virou alvo de saque, os cangaceiros roubaram o comércio, residências, tudo, prejuízo incalculável que marcou indelevelmente a história sousense.Feras endiabradas davam vazão a todos os instintos selvagens possíveis e imagináveis. O destacamento local, comandado pelo então Tenente Salgado, não conseguiu realizar qualquer ação de defesa em Sousa, verdadeiro suicídio se tivesse havido consumação.

Grupo composto de quase duas dezenas de bandidos, liderados por cangaceiro conhecido por "Paizinho", teve como alvo principal a residência do juiz local, de nome Dr. Archimedes Soutto Mayor. "Paizinho" tinha queixas pessoais contra o magistrado, a quem acusava de tê-lo condenando injustamente. Retirado ainda com roupas de dormir, o Juiz foi submetido a todo tipo de suplicia e humilhação, sendo forçado a andar de cangalha e em posição vexatória pelas ruas de Sousa. O ato final seria o assassinato do magistrado, mas Chico Pereira interveio e evitou a consumação do ato extremo. O magistrado, depois de tudo, no ensejo dos desdobramentos do audacioso ataque cangaceiro à cidade de Sousa, assumiu a responsabilidade de fazer merecida justiça contra àquelas feras que o atacaram.

Sabino Gomes

A rede de informações montada por Lampião era impecável e precisa. Logo ele ficou sabendo dos estragos em Sousa e, principalmente, do que fizeram com o juiz. Rodopiava nos calcanhares, ainda sentindo dores terríveis, empunhando Parabellum e raciocinando sobre o futuro dali para frente. Homem de raciocínio rápido, Lampião sabia que em breve enfrentariam duras batalhas contra as forças volantes paraibanas, extremamente tolerantes devido ao respeito ao "Coronel" José Pereira Lima e a Marcolino Pereira Diniz.

Lampião estava certo. A providência inicial do recém instalado governo de João Suassuna foi a instalação do segundo batalhão da Polícia Militar Paraibana na cidade de Patos das Espinharas, com absoluto aval para dar caça ininterrupta aos cangaceiros. A responsabilidade pela iniciativa maior de efetivar a campanha paraibana contra o cangaço liderado por Lampião coube, naturalmente, ao "Coronel" José Pereira Lima. Não obstante a proteção que Lampião desfrutou em Princesa, seria inadmissível que o chefe político das terras da lagoa da perdição tolerasse tamanha afronta, principalmente em razão da forma como o magistrado sousense foi humilhado pelos cangaceiros.

No ensejo da caçada movida contra os bandoleiros, há fato digno de registro, referente à resistência efetivada pelo cangaceiro Meia-Noite em uma casa de farinha no sítio Tataíra, fronteira entre os estados da Paraíba e de Pernambuco. Na companhia da esposa, Meia-Noite, embora a mulher não tenha participado do combate, enfrentou combinado de volantes, comandados pelo então Tenente Manuel Benício, e tropa de cachimbos (civis em armas) contratada pelo "Coronel" José Pereira. Meia-Noite lutou contra oitenta e dois homens, ferindo dezoito. Escapuliu do tiroteio, mas a esposa ficou no local em que se entrincheirara, sendo depois conduzida à cadeia de Princesa. No local, conforme Érico de Almeida, primeiro biógrafo de Lampião, autor do livro "Lampeão, sua história" (1926(1ª ed.), 1996( 2ª ed.), 1998(3ª ed) ), foram encontradas quatrocentas e noventa e duas balas de fuzil mauser DWN, modelo 1912.

Cel José Pereira ai centro com chapeu na mão.

Em seguida, devido às volantes paraibanas estarem assanhadas com a ordem capital de darem combates violentos aos cangaceiros, inúmeros enfrentamentos foram registrados, como a batalha do Tenório, no ano de 1925, quando Levino Ferreira foi assassinado pelo volante Belarmino Morais, comandado pelo então cabo José Guedes. Como forma de se vingar do "Coronel" José Pereira, a quem culpava pela morte do irmão, Lampião e seu bando invadiram humildes propriedades em princesa, como a do Caboré, assassinando diversas pessoas, incluindo entre essas um ancião de provecta idade de noventa e dois anos e um garoto de apenas doze anos.

O governo paraibano invocou o convênio anti-banditismo, firmado no ano de 1922 em Recife (PE), obtendo permissão para que suas forças de segurança pública em perseguição aos bandoleiros adentrassem os territórios de outros estados nordestinos. O grupo cangaceiro, em certa ocasião no ano de 1925, foi localizado na região de Serrote Preto. Desprezando as mais elementares táticas militares, os volantes paraibanos atacaram irresponsavelmente o valhacouto de Lampião. As estratégias guerrilheiras foram implementadas impecavelmente pelos cangaceiros, resultando em horrível carnificina, na qual pereceram os comandantes Tenentes Joaquim Adauto e Francisco de Oliveira, além de mais de uma dezena de soldados.

Abalado com a perseguição tenaz que as volantes paraibanas realizavam, Lampião evitou a Paraíba, pois seus antigos protetores não estavam mais propensos a desafiar as ordens do governo paraibano, bem como a decisão irredutível do "Coronel" José Pereira Lima em buscar erradicar o cangaço liderado por Lampião, pelo menos em terras paraibanas. Para Chico Pereira não houve outra saída, em razão da gravidade dos fatos ocorridos em Sousa, a não ser acompanhar o grupo de Lampião pelas adustas plagas sertanejas. Travou combate em Areias do Pelo Sinal, entre Princesa e o distrito de Alagoa Nova (Hoje Manaíra), depois, vítima de picada de cascavel, em território pernambucano, amargou provações inenarráveis.

Lampião e seu irmão Antônio Ferreira

O extenso processo elaborado pelo Dr. Archimedes Soutto Mayor mostrou-se simpático a Chico Pereira, eximindo-o de algumas culpas e louvando diversas interferências realizadas quando do ataque cangaceiro do dia 27 de julho de 1924 à cidade de Sousa. Perseguido, embora tolerado discretamente, Chico Pereira era, no entanto, alvo de olhares vingativos, sobretudo em razão de suas práticas donjuanescas. Sedutor, Chico Pereira desafiava importante elemento da moral sertaneja. Ao que tudo indica, houve a sedução de uma sobrinha do governador norte-riograndense Juvenal Lamartine, em Serra Negra (RN).

Provavelmente houve um conluio entre Juvenal Lamartine e seu colega João Suassuna para eliminar Chico Pereira. João Suassuna, através de irmão de nome Antônio, empenhou a palavra sobre a total liberdade do homem que foi obrigado a se tornar cangaceiro devido à morte do pai, motivada pela política acirrada dos turbulentos anos da década de vinte do século passado.

Na festa da padroeira de Cajazeiras, no ano de 1928, Chico Pereira foi detido por oficiais da polícia militar paraibana. Manuel Arruda de Assis foi o responsável pela prisão. Conduzido a Pombal, onde tinha praticado crime, quando do cerco ao velho casarão de Antônio Mamede no sítio Pau Ferrado, Chico Pereira ia ser transferido para Princesa, onde havia assassinado soldado de nome Pierre. A escolta que o conduzia rumou em direção a Santa Luzia. Havia um crime atribuído a ele em Acari (RN), referente a um roubo praticado contra o velho "Coronel" Quincó da Ramada. Era parte do esquema estruturado por Juvenal Lamartine para liquidá-lo. Joaquim de Moura, famanaz executor de bandoleiros, foi o responsável pela morte de Chico Pereira.

O ataque do bando de Lampião à cidade de Sousa foi um dos mais ousado ato praticado pelos bandoleiros das caatingas, cuja marca indelével permaneceu por tempos e ainda resiste na memória de poucos que tiveram a infelicidade de presenciar a verdadeira baderna que os cangaceiros fizeram na simpática cidade sorriso no longínquo dia 27 de julho de 1924.


(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor Adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão Territorial (UFPB) e em Organização de Arquivos (UFPB). Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA " UERN). Contatos: E-mails: romerocardoso@uol.com.br. romero.cardoso@gmail.com. Endereço Residencial: Rua Raimundo Guilherme, 117 " Quadra 34 " Lote 32 " Conjunto Vingt Rosado " Mossoró " RN " CEP: 59.626-630 " Fone: 084-3312-0239. Autor:   José Romero Araújo Cardoso



E em março tudo isso e muito mais...

A Noite dos Caceteiros Por Fernando Maia Nóbrega


Os Caceteiros, também conhecidos como “Cerca-igrejas”, eram pessoas simples, moradores de sítios e fazendas do Cariri, afamados por manusearem com destreza, técnica e perícia um bastão de madeira nos combates que exigiam corpo a corpo. No do século XIX, foi muito comum o uso dos Caceteiros como grupo paramilitar na proteção das cidades ou em revoluções devido à escassez e dificuldades na aquisição de armas de fogo. Era uma terrível e assustadora arma usada por eles, tanto para defesa pessoal como para guerra,  fabricada de várias maneiras, conforme afirma Gustavo Barroso: “Quirim é o cacete meio curto, feito de uma vergôntea de duro e fortíssimo jucá, assada, de canela de veado, cheia de estrias, de negra maçaranduba ou coração de negro” .

Uma das primeiras vezes em que se têm notícias da utilização desse contingente como grupo paramilitar ocorreu na Confederação do Equador em 1824 pelo Capitão-de-Ordens Joaquim Pinto Madeira. No combate de Picada, os Caceteiros formando uma espécie de infantaria dizimaram ferozmente os adversários com certeiros golpes desse bordão no crânio ou esfacelando ossos onde quer que atingissem. Têm-se notícias da presença de 500 Caceteiros na Guerra do Paraguai em 1865. Um fato bastante interessante é quando os Caceteiros se transformavam em “Cerca-Igrejas”, espécie de defensores ou guardas da religiosidade popular. Bastava qualquer ameaça que pairasse sobre a Igreja, mesmo infundada, eles se reuniam autônima e independentemente e lá estavam como guardiãs da fé, defendendo sua crença e sua religiosidade.

Um Medo Coletivo... A mudança intelectual sofrida pela Europa nos princípios do século XIX, foi profunda demais para ser aceita repentinamente nos cafundós do nordeste brasileiro. As grandes transformações vindas com a Revolução Francesa, em 1789, apregoando a igualdade, fraternidade e liberdade, impactaram violentamente aqui no Brasil onde imperava ainda a escravidão.



Outro lema proposto na Revolução era o banimento por completo da escuridão intelectual reinante no planeta. Em plena efervescência do positivismo francês, difundia-se o racionalismo e se sugeria o fim das tolas crendices religiosas impostas principalmente pela Igreja Católica, a grande responsável pelo atraso científico do mundo. Existiam pensadores que propunham, até, a troca do catolicismo pelo culto à racionalidade. Chegou-se ao exagero de sugerir que a imagem de Nossa Senhora de “Notre Dame” fosse substituída pela Deusa Razão na cidade de Paris. 

No Cariri essa nova filosofia chegou de forma deturpada, gerando receio que tais heresias se repetissem por aqui. O Brasil evidentemente não ficaria imune às transformações ocorrida na França, posto que nossa elite era educada na Europa e a França ditava a moda e costumes daquele tempo. Daí que em 1821 houve várias manifestações, no sul do país e, no nordeste, em Pernambuco, clamando por uma constituinte que viesse mudar o quadro social da nação.

Tal movimento político se espalhou no interior do Ceará. Talvez pela similaridade com os lemas da Revolução Francesa, o povo, sem muita instrução escolar, interpretou erroneamente as noticias chegadas. Em pouco tempo, corria de boca em boca a inverossímil notícia de que um grupo de ateus pretendia retirar, do altar da matriz do Crato, a imagem de Nossa Senhora da Penha e por, em seu lugar, uma prostituta de nome Úrsula! Ocorreu que no dia 05 de agosto de 1821, celebrava-se, no Crato, uma missa de ação de graça pelo regime constitucional, quando a igreja foi invadida pelos “cabras” da serra de São Pedro, armados de cacetes, enxadas e foices, com o propósito de impedir que a Santa fosse dali retirada . Na ocasião houve brigas e várias pessoas saíram feridas.



O fanatismo religioso no Cariri era tão forte a ponto dos “Cerca-Igrejas” não dependerem do ponto de vista oficial da Igreja ou de líderes políticos para tomarem suas decisões. Auto se denominavam de “Protetores da Fé”, “Guardiãs do Templo” e defendiam per si a bandeira de suas próprias crenças. É bem verdade que essa autonomia tinha origem na desconfiança dos populares contra os padres. Os sacerdotes, salvo honrosas exceções, viviam em concubinatos, amealhavam riquezas e durante bastante tempo apoiaram o regime escravocrata do Brasil. Há registro que as igrejas do Recife foram invadidas e se quebraram imagens de santos. “Nos municípios de Acarape e Quixeramobim, no Ceará, registram-se também, nos anos de 1874-1875, a invasão de templos católicos, e aí são rasgados livros de atas e quebrados móveis”. (06). Havia uma profunda mágoa na alma do povo contra os padres lazaristas franceses que abandonaram, com medo de morrerem, a cidade do Crato quando lá surgiu cólera morbus, em meados do século XIX, procedimento esse muito contrário aos ensinados por Jesus Cristo.

Um outro fato que veio servir de divisor de águas entre a igreja oficial e a popular foi o denominado “Milagres de Juazeiro”. Em 06 de março de 1889, na Igreja de Nossa Senhoras das Dores, quando o reverendo padre Cícero Romão ao dar comunhão à beata Maria de Araújo, a hóstia consagrada se transforma em sangue!(07) A notícia do milagre se espalhou rapidamente pelo sertão e a cidade passou a ser ponto de peregrinação e o sarcedote a ser venerado como santo pelos nordestinos. A Igreja oficial enviou várias comissões de inquérito para averiguação dos fatos e os considerou como embuste. Uma forte pressão foi exercida sobre o padre Cícero para que negasse a miraculosidade dos acontecimentos. A posição forte da Igreja revoltou os sertanejos que passaram a tê-la como inimiga.


Beata Maria de Araujo

Um bom exemplo dessa dicotomia ocorreu em Juazeiro do Norte em 15 de setembro de 1921. O vigário da cidade, Padre Esmeraldo, resolveu demolir uma das torres da igreja, por estar deteriorada, em péssimo estado de conservação, para reconstruí-la depois. Aos olhos dos Caceteiros ou “Cerca-Igrejas”, isso se constituía uma invasão profana à Casa de Deus! Como guardiões da fé, ali estavam para defenderem-na com sacrifico das próprias vidas! Afirma a escritora Amália Xavier: ”Armados de cacetes pensavam que deviam assim defender a casa de Nossa Senhora (...)” . Via-se, então, que pouco a pouco a formação de um sistema autônomo protetor da fé popular. Sem qualquer comando, sem um local fixo, o grupo de Caceteiros surgia organizado e forte. Bastava um boato qualquer e eles se arvoram de um poder defensor da fé popular.

O Dia do Massacre...Após a morte do Padre Cícero ocorrida em 1934, aconteceu um processo inverso do que pensava a igreja católica: o número de fanáticos em Juazeiro do Norte aumentou assustadoramente! Era freqüente a presença de beatos na calçada da igreja pregando o fim do mundo ou interpretando à sua maneira o que o patriarca de Juazeiro falara. A religiosidade popular aumentava de maneira impressionante.

Eis que um fato fez eclodir o velho medo coletivo da usurpação da Casa de Deus! Em 29 de setembro de 1934 , Monsenhor Pedro Esmeraldo, ao rezar missa, aproveitou o sermão para falar sobre o regime comunista e as recentes atrocidades que essa forma ateísta de governo vinha cometendo na Rússia. No ápice da empolgação de sua oratória, atentava aos tementes a Deus sobre uma possível destruição da Igreja por partes dos ateus comunistas! Agora era que a coragem dos romeiros estava à prova: expulsar os inimigos de Deus quando chegasse esse terrível momento! E por essas fatalidades do destino, em meio a sua pregação, o padre Esmeraldo foi acometido de repentina dor de cabeça e caiu fulminado em cima do altar que celebrava a missa!


Eis uma das torres que o Pe. Esmeraldo pretendia demolir
e  foi impedido pelos  Caceteiros

A estupefação popular foi enorme!Os fieis viam naquilo um aviso divino. O velho pesadelo da invasão à Casa de Deus veio à tona. Dr. Geraldo Menezes Barbosa retrata com maestria a sensação dos presentes: “Ficara, porém, seu sermão comentado entre os romeiros e sua morte, no altar como uma ação divina, um martirológio, a exigir dos fiéis uma represália corajosa contra a vinda dos comunistas. (...)” .

A morte do vigário, dois dias após a síncope sofrida na igreja, em circunstância tão inusitada foi o acicate para a junção do grupo dos “Cerca-Igrejas” na função de protetores da Morada da Mãe de Deus. Em pouco tempo foram-se aglutinando a frente da matriz homens armados de foices, enxadas e bastões sob o comando de um certo Venâncio “(...) chegando a se reunir, na aludida igreja, em número mais de 200 ”.

Como um exército perfeitamente treinado e organizado, os Caceteiros de logo traçaram a estratégia a ser tomada. Um grupo seleto circundaria a imagem da Santa como um rosário dentro da igreja e os demais permaneceriam nas portas impedindo a passagem de quem quer que fosse. Ninguém saía ou entrava sem a permissão dos chefes. É evidente que tal aglomeração nas dependências da matriz tornara-se inoportuna para a população local que reclamava do aumento de furto e desordem na cidade. Acusava-se, até, do uso de maconha por parte de alguns invasores.Em que pese os constantes rogos das autoridades locais, os Caceteiros se mantinha irresolutos na sua decisão. Intitulavam-se de “(...) Leões e leões não recuam diante do perigo!”.



Certa ocasião, o próprio Padre Juvenal Colares Maia, substituto do falecido vigário, tentou dialogar com os invasores e foi agredido violentamente. De outra feita, Preto Júlio, Guarda Civil conhecidíssimo na cidade, foi confabular com os Caceteiros e saiu gravemente ferido. Diante da situação insustentável, o prefeito José Geraldo da Cruz se viu obrigado a solicitar a intervenção policial. Dirigiu um telegrama relatando os fatos ao Secretário de Polícia e este autorizou ao comandante do batalhão a tomar as providências cabíveis.

Seguindo ordens, o capitão da polícia Osimo de Alencar Lima, juntamente com o colega também Capitão Firmino de Araújo, reuniu uma comissão de civis e tentaram convencer os ocupantes da inutilidade de suas ações. Em dado momento, porém, um fanático investiu com uma foice sobre o civil Antonio Braz que não morreu graça a interferência do capitão Firmino. O diálogo se tornara inútil. De Fortaleza emanou um telegrama do Secretário de Polícia exigindo a expulsão dos invasores. Que fosse evacuada a igreja ocupada por mais de dois meses. Uma volante policial comandada pelo sargento Mena Barreto, outro sargento, um cabo e doze soldados, armados de fuzis, dirigiram-se ao templo com o intuito de promover sua desocupação. Mesmo diante da presença dos militares, não demonstrando medo, os ocupantes vociferavam:

-“Viva a meu Padim Padre Cícero e 
a Virgem Santa Maria Mãe de Deus!”.

O clima emocional foi ficando paulatinamente mais quente. De um lado se encontrava a volante policial pronta para cumprir a ordem recebida; do outro lado os Caceteiros em pé de guerra. O sargento Mena Barreto vira para seus comandados e grita: -“Acelerado!”

Ao penetrar na igreja o corpo policial se viu acuado diante da ameaça dos “Cerca-Igrejas” que partiram decididos em cima dos soldados. Diante do perigo iminente, o sargento ordenou que fosse disparada uma saraivada de balas para o alto com o intuito de amedrontar os agressores. Os fanáticos ao notarem que ninguém havia sido atingido, viram nisso uma intervenção de Deus e aos gritos de “Vivas a meu Padim!” investiram ferozmente contra os policiais. Sem alternativa, o sargento Mena Barreto bradou: -“Fogo! Fogo!”

Os corpos dos insurgentes começaram a cair e o sangue a salpicar pelas paredes da capela. Gritos de desesperos foram ouvidos por todo lado e numa correria desordenada abandonando a igreja. Horas depois, já alta noite, um caminhão recolhia os mortos e os levava para serem enterrados numa cova coletiva no cemitério local. O número de mortos nunca foi oficialmente informado. Porém, há registro de seis ou sete óbitos e vários feridos . Os Caceteiros se manifestaram novamente no massacre ao Capitão José Bezerra em 1936 e a ojeriza do povo pelo clero oficial culminou com a morte do Monsenhor Joviniano Barreto em 1950, na cidade de Juazeiro do Norte, assassinado brutalmente por um louco alcunhado Pé de Galo.

Fernando Maia Nobrega
Fonte: http://historiadejuazeiro.blogspot.com.br/2011/07/noite-dos-caceteiros.html

E em março...