A Verdade sobre as Forças Volantes Por:Gilmar Teixeira

Volante de João Bezerra em Piranhas, Alagoas

Após uma campanha completamente desastrada e constrangedora em Canudos na Bahia, o Exército regular não podia mais se ver envolvido em conflitos de natureza policial, no entanto seu uso era um constante, isto em função de não haverem ainda forças policiais federais naquela época.
Por outro lado, todos os governos do Nordeste brasileiro, via crescer velozmente o banditismo em seus territórios e precisavam criar uma força policial que fosse capaz de conter esse avanço tão nocivo a todos. Surgem então os pelotões mistos que ficariam conhecidos pelo nome de Volante. Estas volantes eram compostas por policiais militares e nativos do agreste e eram em geral comandadas por um oficial de Exército (tenente ou capitão), ou um delegado de policia, indicados geralmente por um “Coronel” da região, o que os tornavam conhecidos como “delegados calça-curta”.
Esses grupos percorriam grandes distâncias a pé, perseguindo os cangaceiros, na maioria das vezes, em notada diferença, pois os perseguidos se encontravam muito melhor armados e municiados que eles, além de contarem com uma verdadeira rede de apoio formada por coiteiros, simpatizante ou não, que os alimentava e forneciam até armamentos, enquanto que as forças legalistas, não traziam para si este mesmo tipo de apoio. 
Manoel Neto, Chefe de Volantes, de Nazaré
É preciso aqui esclarecer que algumas dessas tropas de Volantes, se utilizavam de métodos iguais e em alguns casos, até mais cruéis do que os dos cangaceiros para com aquela gente sofrida, chegando a ter ocorrido diversos casos de roubos, assassinatos e estupros causados pelos policiais das Volantes. Qualquer atitude ou deslize era motivo justificado para que houvesse esculacho contra os moradores, sendo que desta maneira a integridade física e moral do sertanejo e de seus familiares não valiam absolutamente nada diante daqueles que por ironia, deveriam se obrigar a os respeitar e proteger. Assim, o sertanejo via nos cangaceiros, homens que se respeitados, a recíproca seria idêntica, chegando mesmo a protegê-los.
Outro fator que dificultava o desempenho das Volantes era que ao contrário dos cangaceiros, eles tinham que respeitar as chamadas jurisdições, não podendo ultrapassar as fronteiras estaduais durante as perseguições. Esse impedimento, só bem mais tarde pode ser resolvido com um acordo firmado por quase todos os estados envolvidos, e que permitiam que as Volantes quando em perseguição, pudessem transitar livremente, não mais respeitando fronteiras.
 
Volante do Tenente Zé Rufino
Os componentes das Volantes sobreviviam com baixos recursos governamentais, com armamentos defasados, em marchas longas e exaustivas, muitas vezes sem alimentos, sem água de boa qualidade, dormindo mal, chegando a ficar com fardas aos farrapos, por terem que atravessar a caatinga, em sua maioria formada por facheiros, macambiras, unhas-de-gato, xiques-xiques, madacarús e quipás. E não foram raros os casos em que viram em seus quadros, casos de infecções, disenteria, impaludismos, picadas de cobras, ferimentos à bala, e até tuberculose.

Gilmar Teixeira
Perfil Coronel Delmiro Gouveia
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Jesuino Brilhante: Herói ou Bandido ? Por:Honório de Medeiros


De todos os livros de Câmara Cascudo, para mim nenhum é tão belo quanto "Flor de Romances Trágicos". Comecemos pelo título. Se decompormos e reunirmos novamente os termos que o compõem, nem assim ele faz sentido. O que significa "Flor de Romances Trágicos"?

Entretanto é um belo título. Estranhamente belo. Essa beleza não permite o menor vislumbre acerca do conteúdo da obra. Afinal, se os perfis que Cascudo apresenta são trágicos, com certeza não poderiam, sequer esteticamente, serem considerados romances, bem como não poderíamos denominar "flores" os "outsiders" que o grande escritor apresenta em sua obra. Trágicos, sim, não haja dúvidas... 

Mas o talento enquanto escritor, de Câmara Cascudo, não transparece apenas no título do livro apresentado à nossa leitura e tão representativo do seu olhar inquiridor. Transparece, também, nos perfis desses "outsiders" que ele nos apresenta. Cada um deles é de uma beleza formal e conteudística memorável. Toda essa introdução é necessária para dar suporte à afirmação basilar a ser anunciada agora. Devemos à Cascudo, mais que a qualquer outro escritor, aí incluído Raimundo Nonato, a construção do mito de Jesuíno Brilhante enquanto um cangaceiro "gentil-homem".

Câmara Cascudo

Recordemos: "Jesuíno Alves de Melo Calado foi o cangaceiro gentilhomem, o bandoleiro romântico, espécie matura de Robin Hood, adorado pela população pobre, defensor dos fracos, dos velhos oprimidos, das moças ultrajadas, das crianças agredidas. Sua fama ainda resiste, indelével, num clima de simpatia irresistível. Certas injustiças acontecem porque Jesuíno Brilhante não existe mais. Era o paladino, o cavaleiro andante, sem medo e sem mácula, em serviço do direito comum e natural."

Não fosse a força do seu pensamento, assim como seu talento de escritor, a tradição oral não seria suficiente para construir a imagem de Jesuíno Brilhante que guardamos hoje. Seria verdadeira essa imagem? Estão corretos os fatos por ele apresentados e interpretados, que ajudou a construir uma versão que se tornou praticamente "oficial" e que pautou a obra de Raimundo Nonato, bem como as que lhe seguiram a respeito do famoso cangaceiro? Para começarmos a responder essa questão o primeiro passo é nos indagarmos acerca de quais foram as fontes nas quais bebeu Cascudo para escrever acerca de Jesuíno Brilhante.

Que fontes foram essas? Cascudo alude às seguintes fontes em "Flor de Romances Trágicos": o Padre Antônio Brilhante de Alencar (1873-1942) e Hugulino de Oliveira, de Caraúbas, Rn, que a seu pedido ouviu Dona Maria Umbelina de Almeida Castro. Faz referências, também, embora sem informar se foram fontes suas, a seu avô materno, Manuel Fernandes Pimenta, dono da "Fazenda Logradouro", município de Campo Grande, que segundo ele foi amigo pessoal de Jesuíno Brilhante, e sua mãe que, "menina, bricou muitas vezes com as filhas pequenas do valente".

Além disso, claro, o material resultante da recolha da tradição popular, tal qual o "documento popular""ABC de Jesuíno Brilhante", que Rodrigues de Carvalho registrou em "Cancioneiro do Norte"(Paraíba, 1928). Ou seja, enquanto fontes, as relações familiares e afetivas, bem como a tradicional propensão do nosso sertanejo de interpretar os fatos presenciados ou sabidos dando-lhes forma e conteúdo de caráter mítico turvam a possibilidade de construção de uma imagem de Jesuíno Brilhante condizente com a realidade.

Honório de Medeiros e família

É a essa tradição oral sertaneja, por exemplo, cultivada nos serões familiares, à luz das fogueiras ou lamparinas, que devemos a imagem de Antônio Silvino, Lampião e Padre Cícero que encontramos, ainda hoje, pelos Sertões nordestinos, tão distanciada da realidade. Em sendo assim, existiria alguma outra fonte à qual pudéssemos recorrer para construir uma imagem de Jesuíno que fosse mais real, menos mítica? 

Temos. Neste ensaio vamos mostrar um outro Jesuíno Brilhante. Essa mostra tem dois momentos. No primeiro trataremos de fatos vividos por ele, mas vistos sob outra perspectiva, e, no segundo, traremos à lume um depoimento impactante acerca do cangaceiro, de um cidadão de reputação ilibada, seu contemporâneo, com forte presença na história em decorrência de sua decisiva participação em um momento sumamente importante para o Rio Grande do Norte.

Após fazermos tudo isso, teremos apresentado um contraponto à Cascudo e deixaremos a critério do leitor a escolha que lhe for conveniente para responder a questão que perpassa esse texto: Jesuíno Brilhante, herói ou bandido?

Honório de Medeiros
Sócio e Diretor da SBEC
Conselheiro Cariri Cangaço
fonte:http://honoriodemedeiros.blogspot.com.br/

Inscrições para o IV Simpósio Internacional sobre Padre Cícero podem ser feitas até 10 de novembro !


Pesquisadores do Brasil e do exterior estarão reunidos, de 17 a 21 de novembro no Cariri, para participar do IV Simpósio Internacional sobre o Padre Cícero, que acontece em Juazeiro do Norte, e deverá reunir cerca de mil participantes inscritos, pesquisadores e intelectuais de vários países e estados brasileiros. A temática central será “E...Onde Está Ele”, que faz referência ao prosseguimento dos estudos voltados ao aprofundamento da temática sobre um dos sacerdotes mais polêmicos da história do Brasil. As inscrições para o evento continuam abertas na Universidade Regional do Cariri (URCA), por meio do site da instituição, que é www.urca.br. 

Os interessados podem se inscrever para participar das palestras até o próximo dia 10 de novembro. Já os trabalhos podem ser inscritos para apresentações durante o evento, até a próxima quinta-feira, dia 30. Segundo os organizadores, já há um grande número de participantes inscritos e os maiores pesquisadores sobre o Padre Cícero e religiosidade do Nordeste e especificamente no que diz respeito aos fatos de Juazeiro estarão participando, a exemplo da escritora norte-americana, Candace Slater, além da pesquisadora Luitgarde Barros, professora Dra. da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
 
O evento contará ainda com o Professor Dr. Marcelo Camurça, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e Guy Martini, da Rede Global de Geoparks, da França, entre outros estudiosos do Brasil e países principalmente da Europa. A programação cultural constará de apresentações de grupos da cultura popular, documentários, exposições de esculturas em madeira e xilogravura e caminhada cultural. 

www.urca.br
(Assessoria de Imprensa)
Fonte: Blog do Crato / Dihelson Mendonça

1ª Bienal do Livro de Paulo Afonso


Escritores pauloafonsinos e nordestinos bastante animados com a realização da 1ª Bienal do Livro de Paulo Afonso e o 1º Encontro de Escritores da Região do São Francisco, promovido pelo jornal Folha Sertaneja em parceria com a Academia de Letras de Paulo Afonso e o Instituto Geográfico e Histórico da Microrregião do Sertão de Paulo Afonso, com o apoio cultural da Secretaria de Cultura e Esportes da Prefeitura de Paulo Afonso, da Chesf, Administração Regional de Paulo Afonso, Imprensa Oficial Graciliano Ramos, de Maceió, Suprave, o Ferrageiro, Loja Millenium e outros colaboradores.

O evento, que nutre a expectativa de ser o acontecimento literário do ano, acontece nos dias 5 a 7 de Novembro, no Memorial Chesf Paulo Afonso e os seus primeiros novos frutos já estão nascendo. 
O evento estará reunindo cerca de 40 escritores da região e esse número não é maior porque as inscrições, que estavam sendo divulgadas apenas pelo Facebook e pelo site da Folha Sertaneja –www.folhasertaneja.com.br  foram encerradas há mais de 15 dias, em face do espaço para acomodar a todos com a qualidade que desejamos.
Entre os inscritos, temos escritores de Salvador, Rodelas, Barra, Jeremoabo e Paulo Afonso, na Bahia; Aracaju, Itabaiana, N.Sra. das Dores,de Sergipe, Petrolândia, em Pernambuco e Água Branca, Delmiro Gouveia e Maceió, do Estado de Alagoas. Muitos deles trarão suas produções literárias para exposição e venda nesse encontro cultural. 
Dentre os autores pauloafonsinos estão sendo lançados nesse evento pioneiro no município os livros Versos Diversos em Verso e Reverso, escrito a quatro mãos pelos professores Edson Barreto e Roberto Ricardo, ambos membros da Academia de Letras de Paulo Afonso – ALPA e do Instituto Geográfico e Histórico da Microrregião do Sertão de Paulo Afonso – IGH-MSPA.




Versos Diversos em Verso e Reverso;
 Já publicou os livros Transformações (poesias), em 1988, A Vida e a Vida de Padre Lourenço em 1989 e 1990 e esteve presente em várias coletâneas poéticas como Escritores Brasileiros (1985), Coletânea de Poesias do Modernismo de Paulo Afonso (1990) e Na Mala do Poeta tem Poesia de Todo Jeito (2009) e escreveu um dos cinco capítulos do livro Maria Bonita, diferentes contextos que envolvem a Rainha do Cangaço (2010).
Outro lançamento esperado na 1ª Bienal é o livro Pelas Estradas da Vida, uma coletânea de crônicas e causos publicados pelo Professor Ivus Leal no Jornal de Paulo Afonso, A Voz dos Municípios (de Laranjeiras-SE) e Folha Sertaneja. A edição da Galcom Comunicações/ jornal Folha Sertaneja é um reconhecimento deste jornal ao trabalho do Professor Ivus Leal ao longo dos 10 anos dessa publicação.

Outros relançamentos de livros na 1ª Bienal de Paulo Afonso; O professor Antônio Galdino da Silva estará relançando o livro De Forquilha a Paulo Afonso – histórias e memórias de pioneiros. João de Sousa  Lima, que tem vários títulos sobre o ciclo do cangaço no Nordeste, relança a 2ª edição do livro Lampião em Paulo Afonso, a trajetória guerreira de Maria Bonita, 100 anos de Luiz gonzaga, Moreno e Durvinha, sangue, amor e fuga no cangaço.

Antônio Galdino, João de Sousa Lima e Edvaldo Nascimento

O professor Edvaldo Nascimento, pauloafonsino morador de Delmiro Gouveia, também relança Delmiro Gouveia e a Educação na Pedra. 
Luiz Rubem, que tem vasta produção literária sobre o cangaço, a Estrada de Ferro Paulo Afonso (de Piranhas a Jatobá, antiga Petrolândia) e sobre a região estará relançando algumas de suas obras, como O Bronze do Imperador e a Cachoeira de Paulo Afonso. 

A escritora Joranaide Ramos e o Colégio Sete de Setembro reapresentam o livro Professor Gilberto, Realizador de Sonhos.O poeta repentista Rafael Neto, além do folhetos de cordel e DVDs de cantorias estará relançando o livro Não sou poeta matuto, sou cientista das rimas, já em 2ª edição.Rubinho Lima relança Lampião, Cangaço e Cordel e Regionalismo Sertanejo dentre outras de suas publicações. Jotalunas, autor do projeto Na Mala do Poeta tem poesia de todo jeito apresenta em relançamento os dois volumes da antologia e o seu livro Correntes de Algodão.

Alcivandes Santana traz para a 1ª Bienal do Livro de Paulo Afonso a 2ª edição do livro O Messianismo de Pedro Batista e a Cultura Popular em Movimento. Além deste autores, estão sendo esperados vários outros, vindos de Salvador, Aracaju, Itabaiana, Jeremoabo, Barra, Petrolândia e de outras cidades nordestinas, cada um com suas mais recentes produções literárias. Ao todo, mais de quarenta escritores já se inscreveram para esta 1º Encontro de Escritores de Paulo Afonso e Região do São Francisco que acontecerá no Memorial Chesf Paulo Afonso no período de 05 a 07 de Novembro de 2014.

Veja uma síntese da Programação
 Dia 05 de Novembro – Auditório do Memorial Chesf

19:00h – Abertura da 1ª Bienal do Livro de Paulo Afonso
Homenagens a João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna e 
Antônio José Alves de Souza
 (escreveu o primeiro livro sobre Paulo Afonso, em 1954).

20:15h – Abertura do Salão dos Escritores
Atividades culturais livres: música, poesia, 
depoimentos de escritores, cordel
Estas atividades também serão desenvolvidas neste 
Salão dos Escritores nos dias 6 e 7 de Novembro, 
das 08 às 11:30 e das 14 às 16:30 horas.

Dia 6 de Novembro– Auditório do Memorial Chesf
9:00 h às 09:40h – Mesa Redonda 1 –
Tema: O cangaço na literatura regional –
Palestrante – João de Souza Lima
Participação de dois outros escritores
9:40h a 10:00h – debate – perguntas.

10:00h a 11:00h – Auditório do Memorial Chesf
Palestra, recital e lançamento do livro do “O galope de Ulisses” do poeta José Inácio Vieira de Melo, de Feira de Santana, 
como participação do Sesc-Ler Paulo Afonso.
 14:00 h às 14:40h – Mesa Redonda 2 – Auditório do Memorial Chesf

Tema: A Chesf e o desenvolvimento regional 
(ou O Nordeste antes e depois da Chesf)
Palestrante – Antônio Galdino da Silva
Participação de dois outros escritores
14:40h a 15:00h – debate – perguntas.

15:00h a 15:40h – Mesa Redonda 3 – Auditório do Memorial Chesf
Tema: Delmiro Gouveia, 
o desenvolvimento e a educação no sertão nordestino
Palestrante – Professor Edvaldo Nascimento
Participação de dois outros escritores
15:50h a 16:10h – debate – perguntas.

Dia 07 de Novembro - Auditório do Memorial Chesf
9:00 h às 9:40h – Mesa Redonda 4
Tema: A palavra, instrumento do escritor e a 
Reforma Ortográfica Brasileira
Palestrante – Professor Francisco Araújo Filho
Participação de dois outros escritores
9:40h a 10:00h – debate – perguntas.
 Dia 07 de Novembro - Auditório do Memorial Chesf

14:30horas – Solenidade de encerramento; Certificação
15:00h às 16:30h – Na Mala do Poeta especial – 
apresentação Jotalunas

Fonte:http://www.joaodesousalima.com/

Uma Tarde Saudosa... Por:João de Sousa Lima


João de Sousa Lima, Alcino Costa e Ivanildo Silveira

Alcino Alves Costa foi um dos grandes pesquisadores do cangaço. seus livros são referenciais para quem estuda a parte sergipana sobre o cangaceirismo. Estivemos juntos em várias oportunidades, participando de seminários, palestras e eventos sobre o cangaço. Sempre viajávamos juntos e o acompanhei em sua primeira viagem de avião,  viagem tensa por seu medo de avião,  uma aventura vivida pelo "Decano de Poço Redondo" e que nos proporcionou muitos risos.

Um dos momentos mais marcantes ao lado desse saudoso amigo foi uma visita que eu e Ivanildo Silveira o fizemos em Poço Redondo e que finalizou em uma visita a Maranduba, local de um dos grandes combates entre cangaceiros e volantes. Seguimos os caminhos onde os moradores da região encontram centenas de balas do combate e Alcino chegou a ferir um dos braços. Depois seguimos até a casa de Alcino onde nos serviram um verdadeiro banquete.

Aquela foi uma tarde memorável ao lado do grande e hoje, saudoso amigo. Alcino era uma figura ímpar, daquelas que nunca esqueceremos e que no final da vida, lembraremos com saudade e declarando que a vida valeu ser vivida só pela qualidade de alguns amigos.

João de Sousa Lima, pesquisador e escritor - Paulo Afonso, BA
Sócio da SBEC , sócio do GECC
Conselheiro do Cariri Cangaço

Caatinga: Patrimônio Natural e Cultural, vem aí o IV Congresso Nacional do Cangaço !

Benedito Vasconcelos comanda reunião da SBEC no Piauí

A SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço realizou uma reunião na tarde de sábado na UNIVASF - Universidade Federal do Vale do São Francisco , Campus de São Raimundo Nonato-PI, para discutir a realização do IV CONGRESSO NACIONAL DE ESTUDOS DO CANGAÇO, que será realizado nos dias 27, 28, 29 30 e 31 de outubro de 2015 em São Raimundo Nonato-PI. 

Estavam presentes o presidente da SBEC – Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, Benedito Vasconcelos, e os sócios, Paulo Gastão, Lemuel Rodrigues, todos de Mossoró – RN e Marcos Damasceno e Leandro Fernandes de Teresina; Vanessa Caruza, representando o IFPI, o diretor Leonado representando a UESPI, o professor Guilherme Medeiros representando a UNIVASF, Damiana Crivelare representando a prefeitura municipal, dentre outros professores e intelectuais. 

A comissão organizadora foi escolhida: Benedito Vasconcelos, Marcos Damasceno, Leandro Fernandes, Guilherme Medeiros, Vagner Ribeiro e Damiana Crivelare. Com a temática “Caatinga: patrimônio natural e cultural", o evento será realizado no IFPI com apoio da FUMDHAM, UESPI e UNIVASF e outras parcerias. É esperado um público de cerca de 500 inscritos, vindos de várias cidades do Brasil.

Núbia Lira
São Raimundo Nonato
Piauí

Inconsequente, Maldoso, Eivado de Inverdades... Por :Archimedes Marques

A arte de Aldemir Martins...

Discutir se Lampião e Maria Bonita eram bandidos ou heróis é História. Mas, publicar um livro ressaltando inveridicamente a orientação sexual do casal e tantas outras leviandades é violar a privacidade e intimidade da própria família Ferreira, seus remanescentes, sem qualquer interesse histórico, científico ou jornalístico. Com certeza isso não é construir história é fazer histrionia, histrionice, histrionismo.
Adquirido, passada a curiosidade inicial, o sábio leitor vendo a fragilidade de todas as suas alegações logo verá que tal obra é IGUAL A UM CASTELO DE AREIA NA BEIRA DA PRAIA, em pouco tempo será consumido pela água de volta, destruído por completo. Tal castelo construído sem estrutura alguma voltará a ser simplesmente areia, pois as suas alegações e suposições com pretensas provas, sejam elas testemunhais, documentais ou outras quaisquer, inexistem, sequer indícios há. TUDO FICTÍCIO, fruto da sua imaginação, assim, não tem como se sustentar por muito tempo. Embora para alguns, os maldosos de plantão do mesmo gênero, desinteressados ou leigos por completo no assunto acreditem em tais irreflexões. Estrago feito de qualquer jeito!


Como pesquisador do tema cangaço o autor não passa de UM ARREMEDO DE APRENDIZ: os erros são gritantes e pululam em cada página do seu livro. Ademais as suas palavras na tentativa de desmistificar o Mito Lampião a qualquer custo são CHULAS e também cheias de ódio, ódio que chega ao extremo, chega a transpor a sua própria razão e, sem razão jamais um escritor se transformará em historiador, pois historiador não pode agir tão somente pela emoção, se não conseguir chegar à verdade real, deve pelo menos dela se aproximar, nesse sentido ele demonstra estar longe, bem longe disso tudo, ANOS LUZES de distancia. 


Archimedes Marques em noite de lançamento

Como escritor de romances, talvez tivesse alguma chance, melhor sorte, mas como historiador, com toda certeza ele será reprovado com as piores notas em todos os quesitos. Ao mais exigente leitor com certeza a nota a ser dada será ZERO, pois de tudo do seu livro QUASE NADA SE APROVEITA, posto que da historia verdadeira apenas fatos repetitivos, mesmo assim eivados de erros: datas, nomes, lugares trocados, tipicidade do pesquisador CHINFRIM, desatento para um pouco aliviar.


Dentre as tantas aberrações coloca como suposta TESTEMUNHA DE OUVIR DIZER um cidadão, escrivão, que já faleceu e nada disse para ninguém, somente para ele, então Juiz de Canindé. Dá a entender também que dois ex-policiais volantes que saem em fotografias como seus supostos entrevistados COMUNGAM COM OS SEUS ENTENDIMENTOS, contudo, esses dois cidadãos TAMBÉM ESCREVERAM EM LIVROS AS SUAS MEMORIAS e, as suas narrações são totalmente contrárias, ANTAGONICAS, como antagônico também é o entendimento do prefaciador do seu livro ao seu próprio entendimento. 


Oleone Fontes e João de Sousa Lima no Cariri Cangaço Piranhas 2014

O escritor Oleone Coelho Fontes autor do livro Lampião na Bahia é o seu prefaciador. É a primeira vez que vejo prefaciador e autor se debaterem em TANTAS SITUAÇÕES CONTRÁRIAS UMAS A OUTRAS nas suas obras. 
Além do mais o livro dele VAI DE ENCONTRO A MAIS DE 800 TÍTULOS JÁ PUBLICADOS, alguns deles escritos na própria época do cangaço, na efervescência das guerras em que os pobres sertanejos tanto sofriam e mais do que nunca rogavam pelo fim de Lampião, ou mais ainda pós-era, baseados em incontáveis entrevistas com inúmeros remanescentes desse tempo. Seriam todos esses historiadores perfeitos idiotas, grandes mercenários da cultura ou, exímios enganadores? E as pessoas que viveram a infância, a juventude de Virgulino por quais razões foram omissos nas suas tantas entrevistas?

Não existe no livro LAMPIÃO O MATA SETE um único documento que prove que o autor fez qualquer tipo de estudo, pesquisa ou de onde foi buscar tais informes. Tudo não passa de mera especulação, INVENCIONICE. Mesmo porque não há qualquer demérito em alguém ser ou, LAMPIÃO TER SIDO HOMOSSEXUAL se verdade fosse. A discussão é se o fato é verdadeiro ou mentiroso, e nesse sentido o autor pode ser considerado como o MAIOR IMPOSTOR que a literatura cangaceira já viu.

Aracaju, 07 de outubro de 2014.
Pesquisador, escritor, Conselheiro Cariri CangaçoDescurti

Onde o Capitão Estivesse... Por: Rangel Alves da Costa

Alcino Alves Costa, Patrono do Cariri Cangaço

Meu pai era, a um só tempo, coiteiro e amigo de Lampião, confidente e conselheiro do Rei do Cangaço, fornecedor de armas e mantimentos para o maior dos cangaceiros que já trilharam os carrascais nordestinos. Mas também seu perseguidor, seu crítico maior e até inimigo de muitas ocasiões. Porém sem jamais ter sido volante ou delator.
Meu pai era isso tudo, mesmo só tendo nascido quase dois anos após a morte de Virgulino Lampião. O episódio de Angico, com a morte do líder, sua Maria tão Bonita e mais nove cangaceiros, se deu a 28 de julho de 38. E meu pai nasceu a 17 de junho de 1940 em Poço Redondo, ali pertinho da beirada do São Francisco onde dizem que o famoso casal tombou cravado de balas da volante de João Bezerra.

Mas nada implica que meu pai tenha tido tanta proximidade com o titã das caatingas. Ter nascido quase dois após a morte do outro não interfere no relacionamento tão cordial e amigueiro, tão intriguento e inimizado. E nada de espiritismo ou coisa do outro mundo, mas apenas as linhas que o destino traça ou aquilo que a história acaba unindo.

Verdade que enquanto viveu, pois falecido aos 72 anos a 1º de novembro de 2012, meu pai Alcino Alves Costa praticamente não fez outra coisa senão desencavar, remover, lapidar e preservar os feitos e as andanças, a história e a memória, a saga nua e crua do Capitão Lampião. Este mesmo que até hoje é tido como o maior estrategista das lutas sertanejas e o mais valente de todos aqueles que sob a lua e o sol desafiaram as forças de opressão.

Alcino Alves Costa e a Caravana Cariri Cangaço na Malhada da Caiçara

De tanto ir ao seu encontro, procurar conhecer sua vida, suas bandeiras de luta, seu pensamento e objetivos, acabou encontrando um amigo inseparável. De tanto rebuscar seu passo e sua estrada, sua força e seu poder, sua mística e indiscutível liderança, acabou na mesma senda de cangaceiro ou coiteiro que se comprazia de sua encantadora companhia. Entrou no seu mundo e lá permaneceu. Ora no coito, ora no meio da mataria, onde o Capitão estivesse.

Mas também acabou com conhecimento tamanho de sua vida que tinha vontade de dizer, e bem na cara do próprio Lampião, algumas verdades que ele certamente não gostaria de ouvir. Mas tinha de ouvir. Baixar mosquetão e punhal e ouvir. Não fez assim, o tempo não permitiu que agisse como gostaria, chamando o cabra debaixo da umburana para dizer umas duas. Mas registrou suas indignações nos seus escritos lampiônicos.

O Capitão precisava saber do erro em acreditar que sabia demais, de pensar que os conchavos coronelistas eram garantia de segurança, de infantilmente pensar que tinha o corpo fechado. Virgulino tinha de ouvir muita coisa e ficar calado. Apenas pensar nos erros. Ora, e se fosse mesmo verdade aquela história de amizade com seu algoz, o Tenente João Bezerra, merecia mesmo uma surra. Quem já viu dizer que o caçador se aproximasse da presa com boas intenções?

Alcino Costa de a Caravana Cariri Cangaço em Piranhas, 2010

Era por conhecer e procurar desvendar ainda mais a saga cangaceira e o seu líder maior, que Alcino viveu aquele tempo mesmo estando noutro. Por isso escreveu a história daqueles homens e suas lutas como se tivesse testemunhado os acontecimentos. Pesquisando nos livros e nos campos de lutas, ouvindo personagens daqueles idos, indo atrás onde houvesse um segredo cangaceirista a ser revelado, eis que juntou retalhos e costurou a história no seu realismo maior.

E por adentrar na história com a sede dos sertanejos, por revisitar cada passo e cada ação do grande do cangaço e suas afluências, é que Alcino se tornou tão amigo e tão inimigo de Lampião. Amigo leal e sincero inimigo. Basta ler nos seus livros o quanto venera quando tem de reconhecer méritos, e o quanto desancava ao apontar ações dignas de um bandido comum, cruel e desumano.

Alcino Costa e o "Além da Versão"...

Para se ter uma ideia, no seu livro “Lampião Além da Versão - Mentiras e Mistérios de Angico”, Alcino logo separa o joio do trigo ao afirmar: A maioria de meus leitores irá fazer um julgamento que considero injusto. Irá asseverar que também sou tendencioso, por vezes colocando lá nos píncaros Lampião e alguns lendários cangaceiros. Se o leitor ficar atento aos fatos e narrativas irá perceber que procuro mostrar com isenção e imparcialidade todos os acontecimentos, por mais bárbaros que porventura tenham ocorrido naquela quadra da vida sertaneja, nos conflitos que duraram décadas, no meio da família nordestina.

Sua imparcialidade com os fatos impediu que tomasse partido contra ou favor de Lampião. Em todos os livros que escreveu sobre o cangaço, ele sempre procurou ser fiel aos episódios. Tal modo de historiar, desencavando os acontecimentos para encontrar a verdade, fez com que chegasse a algumas conclusões não aceitas por muitos. Ao tempo que reconhecia a valentia daqueles homens na sua luta inglória, também distinguia a face cruel do banditismo.

Daí que separa o Lampião do outro Lampião. Aquele de quem se tornou amigo pelo destemor e liderança e aquele de quem se tornou inimigo pelo terror espalhado. Mas uma coisa admirava demais no Capitão: a maestria estratégica digna de Sun Tzu. E também o seu poder de iludir a tudo e a todos. Passo a passo, os reais acontecimentos desmentem que tenha sido emboscado no Angico. Mas todo mundo acredita que lá está sua cruz.

Rangel Alves da Costa - Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

Cariri Cangaço Lavras da Mangabeira Edição 2014


Lavras da Mangabeira; o mais novo integrante do Cariri Cangaço em terras cearenses, realizou neste ano de 2014 no mês de setembro a segunda edição do Cariri Cangaço Lavras da Mangabeira.

A competente equipe de Gustavo Augusto Bisneto e nossa Conselheira Cristina Couto, proporcionou uma programação primorosa, tendo como personagens principais na noite do primeiro dia; 
Dimas Macedo, Mundoca Neto e "Padre Cícero"
e no segundo, a sensacional visita ao querido distrito de Quitaiús !

Vale a pena conferir !


Nossa eterna gratidão à família Lavrense, 
e que venha o Cariri Cangaço Lavras da Mangabeira 2015 !

Manoel Severo
Cariri Cangaço

O Estrategista Virgulino Por:Clerisvaldo Chagas

Em foto de 1936, Lampião cumprimenta Benjamim Abrahão

Tirando a banda podre do monstro Lampião, encontram-se méritos inquestionáveis nas estratégias guerrilheiras a que se dedicou. Vivia, entretanto, o bandido no perde-ganha. Suas técnicas de esconde-esconde quase sempre eram descobertas por exímios rastejadores filhos do mesmo mato e das agruras sertanejas. São várias modalidades de ataques, retiradas e demais estratagemas urdidos e amplamente divulgados.

A última estratégia de Virgolino foi também a sua última viagem, definida com a impressionante pena do padre Frederico Bezerra Maciel. Era o dia 20 de julho de 1938, quando o bandoleiro resolveu dirigir-se à fazenda Angicos, na beira do São Francisco, lado sergipano. Ali havia uma grota que serviria de esconderijo, além de estar situada em terras de coiteiros da sua confiança. Lampião estava no lado alagoano, afastado do rio na fazenda e serra São Francisco. Caso saísse para a fazenda Angicos com fácil chegada pela frente, poderia ser visto por espiões e delatores. Procurou, então, atingir o mesmo ponto, em longo rodeio, com entrada pelos fundos.



Assim, descendo a serra São Francisco diretamente para o rio, foi cruzando as fazendas: Conceição, Bom Jardim, Bela Vista, Bardão até chegar diante do Rio da Unidade Nacional no lugar chamado Bonito, muito abaixo do povoado Entremontes, já à tardinha, onde foi bem recebido.

Ao anoitecer, entre frio intenso e chuva, Virgolino atravessa para Sergipe, direto, e aporta no lugar Capoeira Nova. Dali vai subindo, margeando e se afastando do Velho Chico passando pelas fazendas: Macaba, Bebedouro, São João, Jacaré, Cajueiro, Lajeiro, Paraíso e Logradouro. Em Logradouro é acolhido, devidamente alimentado e agasalhado pelo coiteiro da fazenda, volta à direita em direção ao rio e entra na fazenda Angicos, pelos fundos, indo a procura da grota onde chega ao amanhecer e faz seu acampamento. Quem navegasse pelo rio São Francisco, não o avistaria, pois, estava por trás de dois morros, dentro de um riacho seco, cuja curvatura impedia a visão dos curiosos. Dia 21 de julho de 1938.

Essa foi a última viagem e estratégia de Lampião. Como ninguém está em lugar seguro quando a morte o procura, Lampião desencarnou sete dias depois.

Clerisvaldo Chagas.
Fonte:Fonte: http://clerisvaldobchagas.blogspot.com.br/


O Guerreiro que corria atrás do vento Por: Raul Meneleu Mascarenha

Lampião cumprimenta Benjamim Abrahão em foto de 1936

Alguns historiadores em suas dissertações a respeito de Virgulino Ferreira, O Lampião, procuram mostrar que ele não era um guerrilheiro enquanto pensamento político e têm razão, pois se tornou cangaceiro pelas circunstâncias de rixas familiares e não por política partidária e alguns chegam a afirmar a maldade dele já estava no sangue desde jovem. O que quero demostrar aqui, é que ele poderia até não ser um militante político que partiu para a luta armada, mas que era um guerrilheiro estrategista de primeira, ninguém pode duvidar.

Chegou até mesmo a ser reconhecido por um oficial combatente seu, onde desde a primeira batalha entre os dois, narrada por Frederico Bezerra Maciel em sua sextologia ‘Lampião, Seu Tempo e Reinado’ no segundo livro ‘A Guerra de Guerrilhas’ onde o Tenente José Lucena e Lampião ficaram temendo-se mutuamente . 


Lampião, segundo da esquerda para a direita, de quem olha. foto de 1922


De sua parte José Lucena temendo  e receando a sagacidade de Lampião e da parte do temível cangaceiro, respeitando a força do Tenente pelo poderio bélico  e também sagacidade, pois nunca andava fora das estradas reais, usando dessa tática para não aventurar-se ‘no mato’, território do cangaço. O relato abaixo se encontra no referido livro e dará a você leitor, uma visão das estratégias do Rei do Cangaço em batalha real com seu grande inimigo, José Lucena. Vamos visitar a história, lendo o relato:
ISCAS DE FOGO PARA LUCENA...

"Acompanhado de seus irmãos Antônio e Livino, deixou Lampião, mais uma vez, a sepultura de sua estremecida mãe, no cemitério de Santa Cruz do Deserto. Com lágrimas nos olhos e ódio no coração. Uniu-se, com seus dois irmãos, aos Porcinos, aos Marcos, a Antônio Fragoso e a seu tio Antônio Matilde, formando, com mais outros dois cabras do coronel José Abílio, um grupo de treze homens. Subiu o vale do Moxotó, cortando seus areais frouxos e escaldantes de semi-deserto, e a 1de junho de 1921, atacou Santa Clara (Tupanatinga), no município de Buíque. Em seguida, desceu o mesmo vale, passando pelo povoado de Caboclo e pela vila de Pau Ferro (Itaíba), e atravessou a fronteira alagoana do município de Mata. Grande acrescentado de mais quatro homens, agora num total de dezessete, cada qual armado de rifle e punhal e municiado com 450 cartuchos nutrindo as cartucheiras e amojando os bornais. A 5 de junho deu combate aos tenentes Optato Gueiros e Eutíquio na fazenda Pilão do Gato, sem prejuízos de parte a parte, a não ser de objetos. 


Depois atacou a residência de Firmino Brandão e levou o terror às populações sertanejas de Capiá, Maravilha e outras localidades e fazendas que, de sobrosso, corriam para Santana de Ipanema. Tudo isto Lampião fazia por estratagema, com o fito de atrair o tenente José Lucena para um ajuste de contas: — "Quero quebrar e sujicar o sedém deste peste de Zé Lucena".
Arte de Cmarti

Entrementes, em Jatobá de Tacaratu (Petrolândia), reunidos quatro oficiais de Pernambuco, capitães Teófanes Torres e José Caetano e tenentes Carneiro e Campos, e um oficial alagoano, tenente José Lucena, para consertarem, em ação combinada, combate eficaz a Lampião, com o acordo simultâneo das fronteiras interestaduais. De volta a Santana de Ipanema, saiu Lucena com uma volante de sessenta praças para ôlho Dágua do Chicão (Ouro Branco), ausente dez léguas a noroeste. Tendo disto notícia, frechou Lampião, com mais de vinte homens, numa disparada para ali. E a 9 de junho o atacou furiosamente quiném onça faminta. Foi apenas um golpe de mão. 


O todo-poderoso Lucena, acostumado a correr atrás de cangaceiros, que dele se sumiam apavorados, ficou estarrecido com o atrevimento do ataque e a afoiteza da ofensiva inusitada. Por desforra, matou, em caminho, o pacato José Porcino, que não havia participado da luta. E, temeroso face às perspectivas de rumos desconhecidos e novos, que parecia a luta contra o banditismo tomar, requisitou destacamentos e volantes por perto, perfazendo sua força um total de cento e vinte praças bem equipadas. Por seu turno, Lampião arrebanhou mais gente, perfazendo um grupo de mais de quarenta cabras e com muita privinição de armas e munições.
A PRIMEIRA GRANDE BATALHA...

No rumo de Poço Branco
Passou Lampião pelo Espírito Santo (Inajá), deixando para Lucena pista visível e fácil. Vadeou o leito seco do rio Moxotó a uma légua de distância, e fez arranchação de pernoite na casa de seu amigo José Mandu, no Poço Branco, posição estratégica que escolheu para dar combate. Casa grande essa do Mandu, de varanda na frente, olhando para o sul. Na frente, o terreiro ligando-se com o caminho largo, variante da estrada real, que passa ao nascente, unindo Espírito Santo à Mata Grande, localidades separadas entre si por cinco léguas. Atrás, o rio Moxotó, largo, margeado de frondosas caraibeiras e graciosas palmeiras catolé, com suas flabelas farfalhantes encobrindo pejados cachos de pequeninos cocos amarelos. Um dos belos espetáculos daquela ribeira. 

Base da emboscada
O despertar cedo, naquela madrugada fusca e fria de 20 de junho. Depois do café gordo, reforçado com muita carne-seca para dar sustança, distribuiu Lampião o seu pessoal por trás de pés de-pau, de pedras, de barrocas e cercas, as emboscadas para O combate. A casa com o curral, ponto mais difícil, porque perigoso, decerto seria o primeiro alvo visado pelo inimigo. Essa posisição reservou ele para si. A direita da casa, oculto pela serroteira, seu irmão Antônio, com o bote pronto para dar retaguarda, operação esta de que me tornaria, depois, exímio mestre. A esquerda da casa, por trás das cercas de pedra, seu irmão Livino, vanguardeiro, peitudo, indômito. E, mais adiante deste, também camuflado no mato e atrás de pedras, Antônio Matilde.

A cada um coube dez a doze homens.

Larnpiãó fez privinição quiném experimentado cabo de guerra: - "Os macacos não vêem todos juntos, não. Antônio Matilde, sustente no fogo os que chegarem no coice. A gente só faz fogo quando os primeiros chegarem na frente da casa. Espero o sinal meu. Não gastar munição à toa. Se a gente tem de fugir é por detrás, pelo rio. Mas esperem eu dar o sinal".


Tenente Lucena

Cabreirices de Lucena
Em desde o Espírito Santo, vinha Lucena no rasto claro, certo e seguro, deixado por Lampião, na estrada de Tacaratu, paralela à margem direita do rio Moxotó. Mas, quando os rastos entraram no mato, em direção do rio, desconfiou de cilada ao mesmo tempo, assuntou que Lampião, tudo indicava, havia tomado o rumo da fazenda Poço Branco. Apiançando dar um golpe de surpresa pela retaguarda — a hora do dia cedo era favorável para pegar na desprivinição os cangaceiros —, mais que depressa voltou, vadeou o rio, tomando a estrada real que vai para Mata Grande e penetrando na boca do desvio que chega a Poço Branco. Mais uma vez desconfiando, fez alto. Por segurança, saiu caminhando por entro do mato, beiradeiando a variante.
A batalha

Todos os cálculos de Lampião deram certo. Lucena não o atacaria pelo outro lado, a retaguarda. Teria sua tropa dizimada no atravessar do leito seco e arenoso do rio. Acertou também: a tropa veio dividida. Na frente, Lucena com bem oitenta homens. Atrás, pouco distante, o tenente Enéias Barros com uns quarenta. Logo que a cabeça do pelotão de Lucena chegou defronte da casa, fez alto, a modo de observar, através do mato, aquele misterioso silêncio e de ganhar posição. Antes que isto acontecesse, Lampião deu o sinal convencionado com um tiro de pistola, rompendo o tiroteio da casa e do curral contra a tropa. Esta, num sufragante, deitou corpo e tratou, arrastando-se, de logo se mofumbar e entrincheirar para responder ao fogo. O pelotão de Enéias acelerou o avanço, mas foi detido pelo fogo de Antônio Matilde. A peitada não foi de graça, não. Parecia um ridimunho dos infernos! Na tiroteiação, balaços açoitavam as pedras num baticum enervante, ou assobiavam doidamente no meio do panavueiro chamando a morte, ou barbavam o mato, torando as folhas, estalando os galhos... Os cangaceiros, animosos, lançavam, no parraxaxá, desafios, insultos e xingos... gargalhavam sarcasticamente de mangação... rinchavam e zurravam feito animais...

Infuleimado o sangue com a quentura das armas cuspindo fogo e escoceiando nas detonações, as gargantas torturadas de sede com a abafação da atmosfera produzida pela pólvora queimada, os olhos zaros e ardendo e a vista alazã, sem trégua para tomar alento, depressa ficaram os combatentes bebos de raiva virando feras. Lampião levava vantagem dentro de melhores emboscadas, cuidadosamente escolhidas. 
Frederico Bezerra Maciel


Sob as ordens de Lampião, rápido deslocou-se seu irmão Antônio, com seus homens, bem agachados, para atacar, de retaguarda, o flanco esquerdo da tropa de Lucena. Ao impacto inesperado e violento, a parte atacada se desatou do grosso da tropa e recuou com cerca de trinta soldados.

Para salvaguardar a perigosa situação, destacou Lucena imediatamente uns quarenta soldados em contraofensiva. Nesse quando, chamando seu irmão Livino, tentou Lampião o envolvimento do flanco direito da parte da tropa de Lucena que ficara na linha de fogo. Oficial instruído em curso de caserna,  compreendeu Lucena o jogo tático de seu adversário: aniquilar ou afugentar sua tropa para, ao depois, cair sobre a do tenente Enéias. Realmente, muito tempo adiante, narrando a amigos aquela batalha, confirmou Lampião a sua intenção no momento. Isso, porém, não teria passado de mera tentativa se na ocasião tivesse ele, pelo menos, outro tanto do efetivo de Lucena e um poder bélico muito superior. Mesmo assim, saliente-se, nesse movimento de cerco dentro da batalha, talvez tivesse de sacrificar muita gente. Ademais, enquanto a polícia usava carabina-fuzil de longo alcance, semiautomático, e bala de aço de grande poder perfurante; Lampião utilizava rifle papo-amarelo* ou cruzeta, arma de repetição, que esquenta muito após quarenta tiros, de muito menor alcance, e bala calibre 44, de chumbo, chata, de poder antes rompedor que penetrante. Refez e uniu Lucena sua tropa fragmentada e, num trancão impetuoso de fogo cerrado, empurrou Lampião e seus irmãos para as linhas primitivas. Durante a contra ofensiva, houve um corpo-a-corpo, desesperado e sangrento: engalvinharam-se o valente cangaceiro Cavanhaque e um "macaco", rapidamente passando os dois apronto. 


O sol se incrisava.
Lampião verificando a munição ficando escassa, deu sinal de retirada — cinco tiros secos de pistola para o ar. Correndo agachados e atirando, os cangaceiros cruzaram o lençol de areia enxuta do rio e fizeram pousada num arredado perto, embiocados. Lucena não saiu na inculca deles. Voltou, com a 'tropa em muxibas, trambecando, para Santana de Ipanema. Além dos dois mortos na luta corpo-a-corpo, não foi possível obter-se informação exata do resultado da batalha. A tarde se arriara, por coincidência, sombria e triste, envolta em tons arroxeados. E com ela, a catinga começava a adormecer, toda desarranjada e destroçada pelo espasmo da luta, parecente, de mesmo, um espojeiro de monstros anti-diluvianos...

Oficial do Exército?
A seu amigo, Padre José Bulhões, vigário de Santana de Ipanema, comentou Lucena a batalha do Poço Branco: — "Figurei, em dado momento da luta, que Lampião queria mesmo acabar comigo, Depois, diante de seus estratagemas, me veio uma dúvida: Não é possível! Seria mesmo Lampião o comandante? Ou esses cabras estão sendo comandados por  algum oficial estrategista de alta patente, egresso do exército?!...” Classificou também ele, a retaguarda de Antonio Ferreira de “manobra magistral”.

Raul Meneleu Mascarenhas
Blog Caiçara do Rio dos Ventos
FONTE:http://meneleu.blogspot.com.br/2014/10/lampiao-o-guerreiro-que-corria-atras-do.html