E esta tal Liberdade ... Por: Leandro Cardoso e Carlos Eduardo Gomes

Lamartine Lima, Luitgarde Oliveira, Leandro Cardoso, Ivanilde Leite e Manoel Severo no Cariri Cangaço em Porteiras, 2013.

Fala Doutor Leandro Cardoso... "A sensação de liberdade, na verdade, nunca foi "consciente" por parte das cangaceiras. O simples fato de deixarem para trás a "rigidez moral, sexual e de comportamento daquela sociedade, por si só já é uma quebra de correntes, e, portanto, libertação. Lembremo-nos que as cangaceiras fugiam com seus companheiros para viver maritalmente, sem efetivamente casar. E muitas tiveram mais de um companheiro naquela vida. Ou seja: uma micro-revolução sexual. 

Muitas moçoilas sertanejas FUGIAM PARA CASAR com seus noivos, escondidas, quando o consórcio não era aceito por seus genitores. O rapto da noiva até era aceito socialmente, mas ficar sem casar, não (pois seria visto como prostituição). Aí está mais uma ruptura com o padrão socialmente aceito da época. Outro ponto a considerar: o cangaço não era visto pelos jovens como uma guerra, mas sim como uma opção de meio de vida, uma aventura, com a qual elas (e os sertanejos em geral) se identificavam (o chamado escudo ético). 


Maria Bonita

Dessa forma, as vítimas eram fundamentalmente jovens que, mesmo "ouvindo falar" dos riscos, mergulhavam naquela aventura de ouro, guerreiros bonitos e o mundão sem esquina. Os cangaciros caíam no cangaço por necessidade; as cangaceiras, por opção (na maioria das vezes). E, só para encerrar: o cangaço seduziu também mulheres mais velhas, como Dona Delfina, que chegou a ser presa em Canindé do São Francisco por ser coiteira fiel do Rei do Cangaço. O cangaço era sedutor.

Com a palavra Carlos Eduardo Gomes..."Entendo perfeitamente seu raciocínio e estou de acordo. Muitas mulheres acompanharam seus namorados, ou simplesmente foram atraidas para o cangaço em busca da liberdade. Minha tese é de que elas trocaram a rigidez moral, pela vida sem sossego e violenta, sem nunca terem encontrado a liberdade que buscavam. 

Antônio Tomaz, Carlos Eduardo, Ângelo Osmiro e Afranio Cisne no Cariri Cangaço Crato, 2011

Outro ponto importante que você aborda no seu comentário, é a opção pelo cangaço como forma de buscar um meio de vida mais fácil. Importantíssima essa sua citação: “o cangaço não era visto pelos jovens como uma guerra, mas sim como uma opção de meio de vida, uma aventura, com a qual elas (e os sertanejos em geral) se identificavam (o chamado escudo ético). Dessa forma, as vítimas eram fundamentalmente jovens que, mesmo "ouvindo falar" dos riscos, mergulhavam naquela aventura de ouro, guerreiros bonitos e o mundão sem esquina”. Não posso concordar em chamar de vítimas os que tentavam fazer sua vida roubando e matando seus conterrâneos. Não sei contar se os que fizeram a opção pelo cangaço para ter uma vida melhor foram maioria ou não. Falando do cangaço de Lampião, talvez possa ser. 


Leandro, a história do cangaço, em especial a fase de Lampião, tem um colorido muito atraente, fascina muita gente pela valentia, pela busca da vida sem lei nem rei. Mas quando você observa em detalhes o método do Rei dos Cangaceiros, é claro que a rebeldia é substituida pela composição com os donos do poder. Acho que foi Frederico P Mello que chamou Lampião de Coronel sem Terras. A mais pura verdade. 

Dou muita importância ao que os cangaceios disseram. No meu entendimento ao dizer que vinha se dando muito bem no negócio, em 1926, na entrevista do Juazeiro, Lampião confessa seu objetivo, sem deixar dúvidas. Fora as outras evidências de que liderava uma organização criminosa bem montada. 

Estou aguardando ansioso pelo seu prometido trabalho sobre Sinhô Pereira. O cangaço não é só Lampião, embora saibamos que o Cego é o astro rei."

Antônio Vilela, Sousa Neto, Leandro Cardoso, Jorge Renígio, Manoel Severo e Ivanildo Silveira no Cariri Cangaço Barro, 2013

Leandro Cardoso:"Você tocou no X da questão: Lampião sim era um coronel itinerante. E, segundo Sabino Bassetti, inaugurou o "Caixa Eletrônico" no sertão (só que com o dinheiro alheio). O cego véio (no dizer de Maria Bonita) efetivou um cangaço alcaponiano, diferente, no seu cerne, do cangaço-de-revides de Sinhô Pereira e Luis Padre. 

Eles tem, sim, pontos em comum; mas o que manteve na ativa cada capitão-de-cangaço parece bastante diverso. Quanto ao meu trabalho, estou escrevendo algo sobre Sinhô, com algumas coisinhas que descobri, principalmente sobre a "grande fuga". Vamos aguardar !

Leandro Cardoso Fernandes; Teresina PI
Médico, pesquisador, escritor

Sócio da SBEC, Conselheiro Cariri Cangaço

Carlos Eduardo Gomes; Rio de Janeiro RJ
Empresário, membro do Cariri Cangaço

A Música já Estava Encravada


Cariri Cangaço: A Origem...
"A 'musica', já estava encravada na mente do grande Manoel Severo desde a sua adolescência. Em determinado momento entrou em 'hibernação' devido aos contornos que temos que fazer nas desvirginardes da nossa juventude. 

Sálvio Siqueira

Mais tarde, acabando o tempo de descanso, bastou colocar a 'letra' na melodia armazenada. Uma das coisas mais importantes que uma pessoa tem em sua existência, se não a maior, é quando consegue realizar um 'sonho'. 
Mas, para tanto, necessita-se de perseverança e muita determinação. Parabéns ao ilustre. Um grande exemplo foi dado pelo incansável Manoel Severo, e, bons exemplos, não só podem, 
devem ser seguidos."

Sálvio Siqueira.

O Banditismo no Nordeste Por:Donatello Grieco

Ranulfo Prata


RIO, 23 (Da nossa sucursal) – O senhor Ranulfo Prata acaba de publicar um interessantíssimo livro sobre Lampião, que foi editado no Rio por Ariel. Procurado esse ilustre escritor, que já forma em nossa literatura com alguns bons livros de ficção, conseguimos uma entrevista interessante, para os leitores do sul que, em geral, tão pouca coisa conhecem, em linhas nítidas, desse angustioso problema do nordeste brasileiro.


Obtive a documentação do livro, diz-nos o Sr. Ranulfo Prata, na própria região assolada pelo flagelo. Residindo em Santos, fui em dezembro de 31, ao interior de Sergipe onde, na cidade de Anápolis, tenho pessoas de minha família.

Nessas férias, permaneci em Anápolis até março de 1932, procurando sempre entrar em contato com testemunhas pessoais de façanhas do bandido, bem como colher documentação entre as pessoas que me pareceram mais autorizadas a falar sobre o assunto. Colhi, então, os primeiros dados biográficos do facínora.

Este ano, nova viagem foi empreendida por mim àquelas zonas flageladas pelo cangaço. Entrei então, posso dizê-lo com sinceridade, no conhecimento direto dos fatos que mais de perto se relacionam com o banditismo. Viajando de auto de Anápolis a Jeremoabo, quartel general das perseguições e das ações das volantes, passando em Paripiranga, Bom Conselho, Antas e mais regiões sertanejas, vê-se que a gente daquelas vilas não pensa, não fala, não cuida de outra coisa a não ser de Lampião.



Lampião é o problema obsedante; seus atos, todas as suas tropelias sangrentas são discutidos com ânsia febril pelas populações exaltadas. Por isso mesmo que todos falam do mesmo homem. Por lá andando me foi simplíssimo colher dados e narrativa das próprias vítimas, dos soldados, oficiais e mesmo de coiteiros.

Esses “coiteiros” são indivíduos que dão refúgio a Lampião e seus sequazes. Nesta palavra de velho sabor vernacular, está com certeza, o segredo do fracasso de todas as arremetidas contra Lampião. Protegendo o bandido, coagidos por seus ímpetos sanguinários ou então o fazendo por mero desforço pessoal aos policiais truculentos, os coiteiros ocultam todos os detalhes da ação do bandido; e isso dificulta extraordinariamente a captura dos miseráveis bandoleiros.


A ideia do Livro...

- E como surgiu a ideia do livro?

- Vendo o horror que afligia aquelas pobres populações senti-me na obrigação moral de, como intelectual, filho dali e partilhando daquele sofrimento, lançar um clamor e um apelo. Foi o que fiz. As notas que eu próprio tomei, foram depois completadas com as de parentes e amigos, que me merecem a mais absoluta fé. Dos próprios oficiais combatentes recebi relatórios que detalhavam a ação militar. 

A amigo dedicado, velho morador de Jeremoabo, e espectador inteligente do drama, devo também muito dos informes. Esse amigo fez uma verdadeira reportagem pelo interior do sertão, falando até com o velho guerrilheiro Pedrão, sobrevivente de Canudos.


Em fins de dezembro de 31 presenciei, com os próprios olhos, o quadro que descrevi no capítulo “Êxodo”. Às cidades de Anápolis e Paripiranga, esta última uma vila baiana vizinha, vi chegarem magotes e magotes de gente expulsa dos lares sertanejos. Conversei com agigantados vaqueiros que choravam como crianças por terem deixado tudo ao léu: casa, criações, roças. 

Na minha própria cidade, a principal do Estado, o bandido já tentou várias vezes entrar. Quando lá estive, noites e noites passamos sem dormir, com soldados e homens assalariados dentro de trincheiras, fuzil em punho. Os apontamentos sobre as duas visitas do facínora a Sergipe foram obtidos nas próprias cidades invadidas, de pessoas fidedignas.


Minucias do tipo físico de Lampião tive-as do meu amigo e colega Eronides de Carvalho, clínico em Aracaju, que teve o desprazer de hospedá-lo durante uma noite, em uma fazenda dos sertões de Gararu. Muitas das fotografias que estampam o livro de vítimas do bandido, foram obtidas por mim.



A solução do problema...

- E que nos diz a respeito de uma solução a esse problema angustiante do banditismo?

- A solução imediata é a morte ou prisão de Lampião, com a consequente dissolução do bando. 

Posso mesmo expor aqui uma fácil comparação médica: sertão, sofredor da velha moléstia do cangaceirismo, desde longos anos, está agora, numa crise aguda a exigir uma picada de morfina que o alivie de dores cruciantes. Dando-lhe este alívio coem o extermínio de Lampião, ficará ainda a moléstia a merecer terapêutica enérgica que por uma vez, a liquide, voltando o sertão a ser o que deve ser.


Esta solução imediata só uma campanha federal poderá alcançar. Nada mais patente do que a incapacidade dos poderes estaduais, ou melhor, de todo o Nordeste congregado. É uma simples questão de meios: o governo central pode dispor de dinheiro e de força, imprimindo à campanha uma feição séria como exige o problema. Desaparecido Lampião não creio que surja outra figura que adquira a mesma aureola. Apesar dos pesares, de todo o peso das correntes que a política nos amarra aos pés, caminha-se, o sertão progride e já não é meio tão propício ao desenvolvimento do banditismo como há dez ou quinze anos atrás. Os Fords já vasculham tudo aquilo, de Sergipe a Pernambuco, trazendo as consequências civilizadoras fáceis de imaginar.

Concluindo: 

- Com meu livro, termina o Sr. Ranulfo Prata, quis, antes de tudo, fazer obra de repercussão social. 

Não me incomodei unicamente com o amontoamento dos detalhes trágicos da vida do cangaceiro, “Lampião” é um libelo, um livro que envergonha, entristece e humilha, devendo ser visto com sinceridade. É uma chaga que exponho ao sol para ver se é possível curá-la.



DONATELLO GRIECO
Extraído da “Folha da Manhã”, de São Paulo, 
de 28 de janeiro de 1934.

Cortesia de postagem de Antonio Corrêa Sobrinho.

O Cangaço em Sergipe Por: Carlos Brás

A arte de Eduardo Lima

O pequenino Sergipe, entre todos os estados pelos quais o flagelo do cangaço deixou suas marcas, tem lugar de destaque. Entramos definitivamente para a história do banditismo nacional, de forma excepcional e definitiva, no dia 28 de Julho de 1938, quando na gruta de Angicos, localizada no município de Poço Redondo, o tenente João Bezerra e sua volante, liquidou Virgulino Ferreira da Silva, o afamado Lampião, e parte de seus seguidores, interrompendo um reinado de quase 20 anos.

O fenômeno social cangaço teve como pano de fundo o sofrido sertão nordestino com sua temível caatinga, ambiente inóspito, pouco povoado, onde só os fortes sobrevivem. O Raso da Catarina, em território baiano, sintetiza toda a insalubridade e aridez dessa região do Brasil. Tempos medonhos aqueles, onde a presença do estado quase não se fazia notar com o domínio socioeconômico exercido por poderosos coronéis, proprietários de imensos latifúndios, soberanos da terra e da gente, da vida e da morte. A miséria e os constantes conflitos políticos e familiares estão entre os motivos que originaram a escalada da violência, justificando a formação de grupos armados particulares, onde ferozes jagunços garantiam a segurança dos seus patrões.


Lampião nasceu há muitos anos, em todos os estados do nordeste”, conforme cita Graciliano Ramos no seu livro Viventes das Alagoas (1962). Ser cangaceiro era o grito de revolta dos que não aceitavam a opressão e injustiça. Desse cotidiano participaram outros personagens que muitas vezes faziam jogo duplo, a depender de interesses pessoais. Volantes, grupos formados por soldados (chamados de macacos pelos cangaceiros) e cachimbos (civis contratados pelo estado), que praticavam todo o tipo de violação contra a população dos povoados e grotões, sendo tão temidos quanto os bandoleiros. Coiteiros (moradores da zona de conflito, que forçados ou não, auxiliavam os bandidos com suprimentos e esconderijo) enfim uma rede de omissão, medo e cumplicidade que permitiu a longa duração do reinado lampiônico.

Mesmo passadas tantas décadas dos combates encarniçados e da morte do seu líder maior, este triste enredo ainda desperta paixões. O cangaço é uma epopeia repleta de contradições com relação a comportamento, datas e acontecimentos. A mitificação do general da caatinga é responsável pela aura que o cerca, imagem de herói e bandido, que povoa o imaginário popular, promovendo debates, movimentando um circulo gerador de divisas através de manifestações artísticas e culturais, teses acadêmicas, artigos e investigações sociológicas.

Essa condição permite afirmar que o rei do cangaço teve, na realidade, três vidas distintas: 1) o homem comum, vaqueiro, almocreve e coureiro; 2) O facínora amado e odiado; 3) o personagem imorredouro, eternizado em cordéis, filmes, literatura, história em quadrinhos, telenovelas, artes plásticas e folguedos populares.

Xilogravura de Nivaldo Oliveira compõe exposição do MHS
Em solo sergipano, os grupos de famigerados com seu chefe à frente, adentram pela primeira vez no dia 26 de fevereiro de 1929. A cidade de Carira foi escolhida para a indesejável visita dos fugitivos das volantes baianas. Dessa empreitada, conforme alguns relatos participaram apenas sete feras sedentas de tudo, o que já era suficiente para aterrorizar qualquer povoação, e ali se utilizou mais uma vez a tática do bom visitante, amigo, cordial e respeitoso, que não pretendia cometer atos violentos, pagando por tudo que precisava, e promovendo festas.

As estripulias em nossas terras gradativamente tornaram-se rotineiras. O rastro do mal logo se fez notar, trazendo ao pacato sergipano a dor da humilhação, as lágrimas pelos entes queridos ultrajados em sua honra ou mortos, as chantagens e extorsões. Como sempre acontecia, uma rede de colaboradores logo foi arquitetada, garantindo uma relativa segurança à cabroeira. Curiosamente, conforme relatos, o estado de Sergipe foi o que mais contribuiu com elementos para os grupos de meliantes, através do município de Poço Redondo.


No livro A misteriosa vida de Lampião, de autoria do cearense Cincinato Ferreira Neto, à página 158, encontra-se alusão ao nome de Eronildes de Carvalho, futuro interventor de Sergipe, e seu pai, Sr. Antônio Caixeiro, como um dos maiores protetores de Virgulino em nossas terras, fato este que é contestado enfaticamente pelos familiares dos citados. Nossa Senhora da Glória, Pinhão, Frei Paulo, Alagadiço, Gararú, Aquidabã, Saco da Ribeira (Ribeirópolis), Monte Alegre, Canindé e Capela, onde a célebre chegada do malfazejo é contada até hoje, foram cidades testemunhas da aventura cangaceira. E muitos ainda recordam desse tempo sinistro. O nome de Zé Baiano, com seu ferro em brasa, que deixou marcas indeléveis no corpo de algumas mulheres ainda causa repulsa na imagem evocada.

Lampião foi senhor absoluto do seu tempo. Enquanto uns o consideravam um facínora impiedoso e sanguinário, capaz das piores atrocidades, outros lhe atribuíam qualidades, tais como, caridoso, sábio, bondoso, justo, educado, refinado, artista etc. Porém, historiadores e pesquisadores respeitados pela seriedade de seus trabalhos, são unanimes quando reconhecem no capitão a astúcia de um guerrilheiro, o tino estratégico e inteligência de um militar experimentado. Implacável quando se tratava de vingança e autoafirmação. Benevolente quando precisava de proteção, exercia liderança absoluta sobre seus comandados, o que lhe permitiu sobreviver, lutando sempre em desvantagem, sendo vencido apenas pela traição.

A derrota, mais cedo ou mais tarde haveria de chegar, e em Angicos se escreveu a última página dessa dolorosa saga brasileira. Dali escaparam alguns, que ajudaram a perpetuar a lenda. Corisco, alcunhado de “Diabo Louro”, ausente no combate final, responsabilizou-se pelo funesto epílogo, promovendo como vingança mais mortes brutais pela região. Consta que a morte de Lampião em 28 de julho de 1938 não significou o fim do cangaço, a esperança de sua continuidade findou-se com Corisco no dia 25 de maio de 1940.
Corisco, o Diabo Louro 
Carlos Brás

Pesquisador e acadêmico de Museologia da Universidade Federal de Sergipe, estagiário do Museu Histórico de Sergipe/SECULT.                   E-mail: carlos_braz@globo.com

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
MACIEL, Frederico Bezerra. Lampião, seu tempo e seu reinado. 2ª edição. Ed. Vozes. Petrópolis, 1982. (volumes IV e VI)
FERREIRA NETO, Cincinato. A misteriosa vida de Lampião. Fortaleza: Premius, 2008.
RAMOS, Graciliano. Viventes das Alagoas. 8ª edição. Rio de Janeiro: Record, 1962.
FONTE: 
http://museuhsergipe.blogspot.com.br/search/label/Lampi%C3%A3o


Existia Amor no Cangaço ? Por: Maristela Mafuz

Maristela Mafuz, Pedro Barbosa e João de Sousa Lima

Minha visão a respeito desse "amor no cangaço", baseia-se em grande parte, em conversas que tive com Sila e na observação de suas reações em dados momentos, coisas que pude ver durante o tempo que convivi com ela. As meninas, ao entrarem espontaneamente, tinham a visão romântica de que escapariam da submissão a que estavam destinadas e teriam uma vida de aventuras e liberdade. Essa ideia já fazia parte do imaginário na época.


Como a realidade se mostrou cruel e oposta aos sonhos, que opção restava a elas? Aprender a viver nessas condições. RESIGNAÇÃO é uma das palavras que define o comportamento adotado por elas. Obrigadas a aceitar o que não podia ser mudado, seguiram vivendo do único modo que lhes era possível.



Amargando dores de todos os tipos, porém firmes, lutando junto àqueles homens que acompanhavam. Apesar de tudo, esses eram os homens com quem podiam contar e que, de uma forma ou de outra, também as protegiam. Aí surge a CUMPLICIDADE, outra palavra que define o comportamento delas. O 'amor' nasceu desse misto de sentimentos contraditórios vividos por elas. Ódio pela agressão, reconhecimento pela proteção... E a contradição: “esse homem ora me agride, ora me defende...” O que isso representou na cabeça dessas mulheres? Quem pode dimensionar as cicatrizes psicológicas dessas meninas-mulheres?



A submissão e o medo imperavam. O que fazer, senão suportar aquilo, firme e quieta? (adiantaria gritar ou tentar fugir?) RESIGNAÇÃO + CUMPLICIDADE: Para mim esse foi o Amor que existiu no cangaço.



Maristela Mafuz
Fortaleza, Ceará

A Famosa Passagem das Pedras e a Caravana Cariri Cangaço Por: Heldemar Garcia

Louro Teles, Heldemar Garcis, Jorge Remigio, Narciso Dias e Jair Tavares

O Sítio Passagem das Pedras, no município de Serra Talhada, antiga Vila Bela, foi o berço de Virgulino Ferreira da Silva. Aqui às margens do riacho São Domingos, na Serra Vermelha, nasceria nos idos de 1898 o mais destacado cangaceiro de todos os tempos: Lampião. O cenário é a mais pura manifestação da braba caatinga sertaneja. De longe se avista a majestosa Serra Vermelha, tão famosa e tão falada na vasta literatura do cangaço.

A Caravana Cariri Cangaço, formada por seu curador, Manoel Severo e pelos pesquisadores Narciso Dias, Lourival Teles, Jorge Remígio, Jair Tavares e por mim; Heldemar Garcia, estivemos no finalzinho deste último mês de setembro, visitando o cenário dos primeiros passos de Virgulino Ferreira naquele "sertão alegre" do início do século XX.


Sítio Passagem das Pedras, berço de Virgulino Ferreira da Silva
Louro Teles e Heldemar Garcia
Narciso Dias

A fazenda Passagem das Pedras pertence ao confrade Carlos Eduardo Gomes, empresário carioca e membro da família Cariri Cangaço; aqui foi construída uma réplica da casa da avó de Virgulino, dona Jacoza. Atualmente como já há algum tempo, tem sua administração confiada e sob a responsabilidade da Fundação Cultural Cabras de Lampião dos amigos; pesquisador e escritor Anildomá Souza e sua esposa Cléo. 

"Ali é um lugar polêmico e importante. Uns dizem que o parto foi de um lado da cerca, outros dizem que foi do outro lado. Mas foi naquele chão que veio ao mundo o Capitão Virgulino..." relata Carlos Eduardo Gomes. O fato é que de um lado ou do outro da cerca, nasceu Virgulino Lampião, bem vizinho as terras da família de Zé Saturnino e o resto todos já sabem....


Réplica da casa de dona Jacoza, na Passagem das Pedras
Serra Vermelha
Carlos Eduardo Gomes, proprietário do Sítio Passagem das Pedras

Sobre a réplica e o local da casa de dona Jacosa no sítio Passagem das Pedras, nos valemos de um relato de Carlos Eduardo respondendo ao saudoso Alcino Costa aqui mesmo neste blog ainda em 2010, vejamos: "Meu prezado mestre e amigo Alcino, muito bom saber que o grande sertanejo de Poço Redondo está atento as mudanças ocorridas lá na terra onde nasceu Lampião. De fato houve pequenas mudanças no local, porém confio que o lugar onde foi construida a casa que representa a antiga morada de Da. Jacosa, é exatamente o mesmo. Na época da construção pessoas que conheceram a casa antiga foram consultadas para que a nova casa mantivesse as características da residência onde Virgulino passou boa parte da infância. Infelizmente não foi encontrado nenhum registro fotográfico da velha casa que permitisse assegurar que a nova construção é réplica fiel do antigo imóvel. Fora isso, a casa sede da antiga fazenda, não resistiu a uma chuva muito forte e infelizmente ruiu, antes que pudessemos tentar recuperá-la. Essa casa não existia na primeira década do século passado, quando a terra pertencia a família de Lampião. É sempre um prazer dialogar e aprender com mestre Alcino, homem de elegância e muito respeito ao debater e ensinar. Sem deixar-se contagiar pelo orgulho excessivo que as vezes leva ao exagero desagregador", concluía Carlos Eduardo Gomes.

Estando em Serra Talhada saímos pela rodovia que nos liga ao município de Floresta, cerca de 20 km de estrada vamos encontrar a "estrada José Saturnino", agora é entrar a esquerda e rodar mais uns 4 a 5 km até chegar a Passagem das Pedras, não sem antes pararmos no local exato onde se deu o primeiro confronto armado entre Virgulino e seus irmãos contra Zé Saturnino, seu primeiro inimigo. Nesse fogo saiu ferido o irmão de Virgulino, Antônio Ferreira.

Estrada Zé Saturnino
Aqui se deu o primeiro combate em armas entre Virgulino e Zé Saturnino
 Manoel Severo e Louro Teles
 Caravana Cariri Cangaço rumo a Passagem das Pedras
Jorge Remígio

Sou jornalista com especialização em marketing, ou seja, não tenho nenhuma afinidade mais profunda com o tema cangaço, mas pisar o solo que foi berço do mais destacado cangaceiro da história do planeta, Lampião, é algo simplesmente sensacional e devo isso a grande família Cariri Cangaço, que aos poucos vai me permitindo adentrar neste mundo totalmente fascinante, e tem sido assim em todas as nossas viagens de trabalho; enquanto "eles" pesquisam, eu me encanto com tudo que diz respeito ao universo do cangaço.

 Louro Teles, Heldemar Garcia e Narciso Dias nas trilhas de Virgulino
Narciso Dias e uma relíquia de Louro Teles: Punhal pertencente a Meia-Noite
Manoel Severo e Louro Teles

Durante essa jornada ainda tivemos a oportunidade, a partir do confrade, Louro Teles, de ver um punhal artesanal que pertenceu ao cangaceiro Meia-Noite. "Esses punhais eram incríveis e aterrorizantes , tinham tamanhos e adereços diferenciados, de acordo com a posição do cangaceiro dentro do grupo" ressalta o pesquisador de Calumbi, Louro Teles. "Já fazia tempo que queria conhecer a Passagem das Pedras e hoje realizei esse desejo" relata Jorge Remígio. Missão cumprida em mais uma visita de trabalho da Caravana Cariri Cangaço, até logo mais !

Heldemar Garcia
Assessor de Marketing Institucional
Cariri Cangaço

Canudos por Evandro Teixeira


Evandro Teixeira, nascido na Bahia, começou a sua carreira de fotógrafo em 1958 no jornal DIÁRIO DA NOITE, no Rio. Em 1963, ingressou no JORNAL DO BRASIL, onde está até hoje, cobrindo os principais episódios políticos, sociais e esportivos do país e eventos mercantes do cenário mundial. Golpe militar no Brasil, golpe no Chile, Jogos Olímpicos, Copas do Mundo. Visitas de reis e rainhas, viagens presidenciais, peregrinações de papas. Desfiles de moda em Paris, violência policial, seca no Nordeste.

O olhar de Evandro Teixeira ganhou o Brasil e o mundo. Além das principais capitais do país, Evandro expôs em Paris, Frankfurt, Zurique, Madri, Veneza, Basel, Nova lorque, Cuba, México, Buenos Aires, Bogotá. Seu nome e currículo estão na Enciclopédia Internacional de Fotógrafos, onde estão reunidos os maiores nomes da fotografia no período de 1839 até os dias de hoje. Suas fotos fazem parte dos acervos do Museu de Arte Moderna do Rio, Masp e Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, Museu de Belas Artes de Zurique, Suíça e Museu de Arte Moderna La Tertulia, Cáli, Colômbia.

 
 

O primeiro prêmio veio em 1969 concedido pela Sociedade lnteramericana de Imprensa. Recebeu, entre outros, os prêmios dos concursos internacionais da Nikon (Japão, 1975 e 1991) e da UNESCO (1993). Publicações internacionais corno "Photo" (Franca), "Harper's Bazaar" e "7″ (Itália), Revista da Leica (Alemanha) e Revista de Fotografia da Suíça já dedicaram páginas a seu trabalho. Na imprensa brasileira, é fonte de referência obrigatória quando o tema é fotografia. Vem sendo jurado de importantes prêmios nacionais e internacionais.
Evandro editou dois livros: "Evandro Teixeira – Fotojornalismo", lançado em 1982, registra acontecimentos e personagens nacionais e internacionais mercantes desde a década de 60, com prefácio e textos de Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende e Antonio Callado. Uma segunda edição ampliada foi lançada no Rio, São Paulo e Basel (Suíça) em 1988, com novas fotos e texto do jornalista Marcos Sá Correa. Quatro anos depois, "Fotojornalismo" foi incluído no acervo da biblioteca do Centro de Artes Georges Pompidou, Paris, França.

 
 

Já em 1997, foi a vez de "Canudos 100 Anos", onde Evandro eterniza, através da fotografia em preto-e-branco, os vestígios e os sobreviventes da Guerra de Canudos, transformando as suas fotos, o prefácio de Antonio Callado e o texto da jornalista lvana Bentes num registro histórico e artístico desse importante capítulo da história brasileira.
Em paralelo à Villa Maurina, Evandro inaugura em abril uma exposição individual em Basel, Suíça. No segundo semestre deste ano, participa, na Galeria da Leica, em Nova lorque, de uma mostra coletiva dos 40 mais importantes fotógrafos do mundo, ao lado de Sebastião Salgado (os únicos dois brasileiros da mostra), Henri Cartier Bresson, Robert Capa e Marc Ribaud. E expõe individualmente na Galeria da Leica, Alemanha.

Evandro Taixeira

Evandro Teixeira: Um Depoimento...

"Há 38 anos sou fotógrafo do Jornal do Brasil. Isto é suficiente para me ligar ao mundo em todos os momentos. Minha aventura pessoal identifica-se com a aventura vivida pelo mundo. Não tenho méritos por isso: sou um homem manejando uma câmera. Quando bem operada, é um fósforo aceso na escuridão. Ilumina fatos nem sempre compreensíveis. Oferece lampejos, revela dores do impasse do mundo. E desperta nos homens o desejo de destruir esse impasse.

Dirijo minha energia à perseguição desse objetivo: captar a aventura de cada um, desvendando, através da imagem, seus pequenos mistérios. Gosto de ter absoluta visão da rua, meu ambiente, lugar onde os homens lançam desejos e sofrem destinos. Na rua, me esforço para atender ao mundo, e reproduzir o meio físico através da minha maneira particular de olhar a vida.

Neste esforço de desvendar a alma das coisas, sou um profissional insatisfeito. Minhas fotografias são tristes. Sou fotógrafo que anda devagar com sua máquina. A ênfase que coloquei no meu trabalho, cristalizando o meu momento numa imagem, não contribuiu para trazer alívio às minhas aflições. O mais importante é o que deixei de fazer e o que deixarei de realizar vida afora."


Fonte: Perfil Coronel Delmiro Gouveia
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