Um Dedo a mais de Prosa sobre Lampião Por:José Cícero Silva

Arte de Carlão

Muito já se sabe sobre a história de Lampião em seus quase 20 anos de intensas estripulias pelos sertões de sete estados nordestinos. Porém, ao contrário daquilo que muitos ainda imaginam, inclusive bons pesquisadores e outros “escribas livrescos”,  há muito ainda a ser desvendado e escrito acerca da saga lampiônica pelos grotões sertanejos do Nordeste.

Informações fundamentais para que se consiga de uma vez por todas, compreender tal história e assim, fechar-se o imenso círculo do subjetivismo narrativo de toda esta complexa empreitada de quatro décadas chamada Cangaço.

De longe o mais importante fenômeno social já ocorrido nos sertões nordestinos  que teve na figura humana e singular de Virgulino Ferreira da Silva – o Lampião, o seu principal protagonista. Conquanto, quer seja como herói ou como bandido, o certo é que Lampião representa até os dias atuais um autêntico divisor de águas no que concerne à história sertaneja. Posto que, depois dele o sertão com sua gente nunca mais seria o mesmo.  


José Cícero Silva

E neste dualismo existencial, quer seja para o bem ou para o mal, os feitos produzidos pelo caatingueiro vilabelense, rei do cangaço entraram definitivamente para à história como algo imorredouro,  fornecendo ainda hoje  combustíveis inesgotáveis para grandes debates e discussões acaloradas. Algo só comum quando se trata de grandes personagens da história humana na sua dimensão universal.  

O cangaço, portanto, com sua escalada de feitos e violências, a partir de Lampião ocupou de vez grandes espaços na agenda sociopolítica do litoral, chamando assim as atenções da opinião pública não somente de dentro do Brasil. Fazendo com que a sociedade da época começasse a dá-se conta da péssima situação de miséria, violência, injustiça e abandono em que se encontravam submetida populações inteiras dos sertões do Nordeste por anos intermináveis de sofrimento e abandono. Só a partir de então, diria que efetivamente, o sertão dos esquecidos passou a fazer parte do país dos poderosos. Porém, a história dos oprimidos continuaria ainda a ser escrita/descrita sob a pena dos vencedores.

O fato é que, Lampião, a um só tempo, foi vítima e também responsável por parte importante deste verdadeiro estado de barbárie quase absoluta que se abatera sobre os rincões inóspitos e abandonados do interior do Nordeste pelos poderes da capital. Razão porque(hoje mais do que nunca) é preciso analisar de modo objetivo e distanciado de quaisquer ranços de ódio ou de paixões, as muitas faces e roupagens com que se vestiu o espectro  do cangaço em sua dimensão mais  realista e mais cruel. Assim como, todas as motivações que se impuseram sobre os povos dos sertões forçando muitas vezes a ingressarem na vida cangaceira, seja por vingança ou mesmo por pura necessidade de sobrevivência.  


José Cícero no Cariri Cangaço em Aurora

Muitos dos quais como jagunços à serviços dos coronéis seus patrões. Depois, como integrantes de grupos e subgrupos de temíveis cangaceiros que durante aqueles anos infestaram a região de uma ponta a outra. No mais das vezes indivíduos perigosos e sanguinolentos acostumados ao sofrimento de um mundo sem lei para os quais a única lei que realmente valia era a “lei do cão”, cujo roubo, a vingança, a morte e o uso da força  eram  no senso comum de sua maioria a expressão mais forte e mais sentida.

Neste aspecto, é possível muito bem se afirmar por exemplo, que a dinâmica do coronelismo da época que grassava pelos sertões muito pouco se diferenciava do cangaço em seu modus operandi corporificado por sua sanha absurda de criminalidade, opressão, pilhagem e injustiça de toda sorte.  De modo que, em ambos os casos, foram sempre os sertanejos mais pobres, suas vítimas em potencial. Todavia, no contexto em que se precipitaram todos aqueles acontecimentos dantescos, Lampião e sua gente, seriam apenas mais um, que por vingança, sobrevivência ou manutenção da honra acharam-se no ‘direito’ de tentar fazer justiça pelas próprias mãos.

Como se percebe, mais uma evidência de que quando o Estado não se impõe aos homens por um dever de justiça, os homens se voltam contra Ele como que pela justiça do dever que lhes negaram. E assim, ambos se fizeram criminosos, tanto pela indiferença quanto pela omissão de todos em relação ao bem comum. E nesta correlação de forças, o povo do sertão foi o grande derrotado. Por conseguinte, com ou sem a marcante presença de Lampião(um homem que se fez valente para não sucumbir), os sertões nordestinos nunca foram o tal ‘céu de brigadeiro’ como se fingia crer a maioria perante a manutenção do status quo dos poderosos em sua aparente tranquilidade bizantina.  
Assim, de modo um tanto quanto enviesado e incompreendido, eis que Lampião – o legítimo sertanejo, continua ainda hoje(quem sabe) na memória histórica e coletiva do povo a pagar sozinho o alto preço de uma injustiça institucionalizada que se fizera madrasta dos necessitados ao longo de todo este tempo sofrível de guerra, tragédia e de paz.

José Cícero
Professor, Pesquisador, Escritor
e Conselheiro do Cariri Cangaço.
Autor do livro 

"LAMPIÃO em Aurora: Antes e Depois de Mossoró"
Fonte:http://blogdaaurorajc.blogspot.com.br


E de 25 a 28 de Julho
Cariri Cangaço Piranhas 2015

João Gomes de Lira Por:José Bezerra Lima Irmão

João Gomes de Lira

Amigos do Cariri Cangaço, quando se fala em João Gomes de Lira, é preciso dizer quem foi ele, para que os novos "internautas" fiquem sabendo quem foi essa extraordinária figura humana. No último dia do encontro do Cariri Cangaço Princesa 2015, liderado pelo nosso abnegado Manoel Severo , em março passado, a caravana de estudiosos do fenômeno do cangaço esteve na gloriosa vila de Nazaré e tirou fotos na fazenda Jenipapo, do legendário Antônio Gomes Jurubeba (Seu Gomes), pai de João Gomes de Lira. Registre-se bem: João Gomes de Lira, filho de Nazaré, ex-soldado de volante, é autor do livro "Lampião: Memórias de um Soldado de Volante", uma obra indispensável para quem estuda e leva a sério os assuntos do cangaço. 

Para escrever um grande livro, não é preciso muita erudição. O que é preciso mesmo é afinco. João Gomes de Lira tinha pouca instrução, mas escreveu um dos mais importantes e mais completos livros sobre o cangaço. Suas versões dos fatos são objetivas e confiáveis. As datas e os lugares são citados com precisão. Estive com ele três vezes. Grande figura. Sempre que passo por Nazaré, entro no povoado, faço uma volta pela pracinha histórica e, antes de sair, me demoro um pouco em frente à casa onde viveu seus últimos dias o grande João Gomes de Lira. Toda manhã, ele se sentava debaixo de uma das árvores em frente a sua casa, onde cumprimentava os que passavam ou iam vê-lo. Sua bênção, querido João Gomes de Lira.

José Bezerra Lima Irmão
Pesquisador e Escritor


João Gomes de Lira e a homenagem do Cariri Cangaço

NOTA CARIRI CANGAÇO: Nascido em 13 de julho de 1913 na Fazenda Jenipapo, distrito de Nazaré do Pico – Município de Floresta/PE, viveu ali parte de sua vida. Ingressou na Polícia Militar do Estado de Pernambuco em 16 de Julho de 1931. Com dezessete anos de idade integrou na volante que tinha como comandante o Cel. Manoel Neto que perseguia Virgolino Ferreira da Silva, o "Lampião". Depois do fim da campanha contra o cangaço, foi destacar nos municípios de: Afogados da Ingazeira, Iguaracy, Tabira, Carnaíba e Flores todas cidades do interior pernambucano, onde foi delegado de polícia. Foi várias vezes ouvido pela imprensa para contar relatos da luta dos seus conterrâneos contra o bando de Lampião. Enquanto vereador de Carnaíba, João Gomes de Lira escreveu sua Obra: "Memorias de um soldado de volante", narrando sua vida e suas andanças em busca de cangaceiros. João Gomes de Lira faleceu no dia 04 de Agosto de 2011, na cidade do Recife, aos 98 anos.

E de 25 a 28 de Julho
Cariri Cangaço Piranhas 2015

Pelos Caminhos de Lampião Por: Yuno Silva

DOCUMENTÁRIO “CHAPÉU ESTRELADO – OS CAMINHOS DE LAMPIÃO NO OESTE POTIGUAR” COMEÇARÁ SUAS FILMAGENS EM BREVE

A passagem meteórica de Virgulino Ferreira da Silva pelo Rio Grande do Norte, em junho de 1927, vai muito além da histórica derrota sofrida em Mossoró. Eterno rei do cangaço, temido e amado por muitos, Lampião circulou 96 horas por terras potiguares deixando um rastro de violência que o tempo não foi – e muito provavelmente não será – capaz de apagar. É no encalço dessa rota, que durou apenas quatro dias, que o documentário em longa-metragem “Chapéu Estrelado – Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar” cai na estrada a partir do dia 22 de abril. A data de lançamento ainda não está definida, mas a intenção da equipe é lançar ainda este ano.
Com direção do cineasta carioca Silvio Coutinho, roteiro do escritor e artista plástico Iaperi Araújo, produção executiva do crítico de cinema Valério Andrade (FestNatal) e pesquisa de Rostand Medeiros, o filme refaz o caminho que o bando de Lampião (1898-1938) trilhou entre 10 e 14 de junho de 1927 pelo interior do Ceará, Paraíba e RN. Período que marcou o início do fim do reinado do Capitão Virgulino pelo Sertão nordestino
A proposta do ‘road movie’, cujas imagens serão capturadas com equipamento de tecnologia 4k (resolução quatro vezes superior ao padrão ‘Full HD’), é registrar a memória de herdeiros diretos, gente que está na faixa dos 80 anos, daqueles que testemunharam episódios envolvendo o famoso cangaceiro. Entre os depoimentos, imagens antigas e comentários de historiadores e estudiosos do tema.
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Sem amparo de leis de incentivo ou editais, com alguns apoios locais, o documentário será rodado de 22 de abril a 6 de maio na zona rural de cidades como Luis Gomes, Major Sales, Marcelino Vieira, Antônio Martins, Caraúbas, Apodi, Felipe Guerra, Governador Dix-Sept Rosado, Mossoró e Baraúnas – em 1920 o caminho dos cangaceiros atravessava seis municípios, hoje são 19.

“Nosso ponto de partida será a fazenda de Ipueira, em Aurora no Ceará, onde Lampião foi acolhido pelo Coronel Isaías Arruda. Foi lá que ele conheceu o pistoleiro (e dublê de cangaceiro) Massilon, que seria seu guia pelo RN. O alvo do bando era Mossoró”, disse Rostand Medeiros, escritor e autor da pesquisa que embasou o projeto “Nas Pegadas de Lampião” encomendada pelo Sebrae-RN em 2010. Saindo de Aurora, o filme segue Lampião pela Paraíba, sobe a ‘tromba do elefante’ e termina na cidade de Limoeiro do Norte também no CE.


O livro “Lampião e o Rio Grande do Norte: a história da grande jornada”, de Sérgio Dantas, foi utilizado como base para o trabalho de percorrer o caminho de Lampião no RN - Fonte - lampiaoaceso.blogspot.com
O livro “Lampião e o Rio Grande do Norte: a história da grande jornada”, de Sérgio Dantas, está sendo utilizado como base de dados para o trabalho de percorrer  e filmar o caminho de Lampião no RN – Fonte da foto – lampiaoaceso.blogspot.com

O mapeamento inicial do trajeto dos cangaceiros pelo RN foi feito pelo juiz Sérgio Dantas, que em 2005 lançou o livro “Lampião e o Rio Grande do Norte: a história da grande jornada”. No livro, Dantas desfaz equívocos e tira das costas de Virgulino Ferreira uma série de crimes que o cangaceiro não teria como cometer por questões temporais e geográficas.
“A resistência em Mossoró é um fato histórico muito importante, mas a curta passagem de Lampião pelo RN vai além”, garante Rostand, que já percorreu todo o percurso de moto para se aproximar da trilha original feita à cavalo. O pesquisador ressalta que Lampião tinha pretensões puramente financeiras na empreitada, enquanto Massilon e o Cel Isaías Arruda também tinham motivação pessoal, política e de vingança. “Quando Virgulino percebeu que estava sendo usado era tarde, o estrago estava feito. O plano dos cangaceiros era subir sem alarde até Mossoró, queriam manter o elemento surpresa, mas Massilon tocou o terror logo no primeiro povoado (Canto do Feijão, atual Santa Helena na PB) matando o delegado do lugar”.


Jornal de Caicó repercutindo o ataque de Lampião e seu bando a Mossoró
Jornal de Caicó repercutindo o ataque de Lampião e seu bando a Mossoró

Sobre o combate em Mossoró, Rostand informa que há um entendimento de que Lampião não foi para a linha de frente propriamente dita, e sim enviou subgrupos comandados por Massilon (que conseguiu fugir do massacre), e os cangaceiros Sabino, Colchete e Jararaca – este último capturado, executado e que hoje é tido como santo para devotos que visitam seu túmulo todo Dia de Finados na capital do Oeste.


Em 2010, realizando uma consultoria para o SEBRAE-RN, percorri junto com o amigo Solón Rodrigues Netto o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte, baseando a rota no trabalho de Sergio Dantas,  Já naquele período este trabalho havia sido notícia no jornal natalense Tribuna do Norte
Em 2010, realizando uma consultoria para o SEBRAE-RN, percorri junto com o amigo Solón Rodrigues Netto o caminho de Lampião no Rio Grande do Norte, baseando a rota no trabalho de Sergio Dantas, Já naquele período este trabalho havia sido notícia no jornal natalense Tribuna do Norte.

“Mossoró utiliza, com razão, muito a memória desse ataque, mas tem muita coisa no caminho”, avisa Rostand, citando o exemplo da igreja de São Sebastião construída no alto da Serra de Veneza, em Antônio Martins, por pessoas que conseguiram escapar do bando e que prometeram rezar uma missa anualmente se sobrevivessem.


Diretor Silvio Coutinho - Fonte festnatal2013.blogspot.com
Diretor Silvio Coutinho – Fonte festnatal2013.blogspot.com

“Até hoje essa missa é rezada”, acrescenta o pesquisador, que ainda não conhece Silvio Coutinho pessoalmente, mas tem trocado ligações telefônicas frequentes com o diretor que chegam a durar horas.
O roteiro de Iaperi Araújo, que também assina parte da trilha sonora original, teve como base, além das pesquisas, os três livros publicados por ele sobre o assunto: “A Cabeça do Rei – A morte e a morte de Virgulino Ferreira da Silva Lampião” (2007), “No Rastro dos Cangaceiros” (2009) e “Angico 1938” (2013).


O escritor e artista plástico Iaperi Araújo é o roteirista de “Chapéu Estrelado – Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar”
O escritor e artista plástico Iaperi Araújo é o roteirista de “Chapéu Estrelado – Os caminhos de Lampião no Oeste Potiguar”

“Há um tempo escrevi um roteiro de ficção sobre Lampião no RN. Acabou não vingando, aí surgiu essa oportunidade do documentário. Quando Silvio Coutinho esteve em Natal, em 2013, para o FestNatal, conversamos e ele ficou muito animado com a ideia”, lembrou Iaperi. “Pediu o básico do básico (passagem aérea, hospedagem e alimentação) pois acredita no potencial do projeto”.
"Não conhecia a dimensão dessa passagem de Lampião aí pelo RN, fiquei fascinado com o que ouvi e me ofereci para ajudar a levar essa história para o cinema”, contou o diretor Silvio Coutinho por telefone ao VIVER. “Estamos fazendo tudo com muito cuidado, muito carinho. O projeto está sendo conduzido com seriedade e acredito muito nesse filme”.
Coutinho adiantou que o formato do documentário, que conta com parceria da produtora Locomotiva Cinema de Arte (RJ), será moderno, dinâmico. “Vamos explorar bastante a paisagem dos três estados onde vamos filmar (CE, PB e RN) e ouvir herdeiros dessa memória pelo caminho”.


A produção executiva deste documentário esta a cargo de Valério Andrade, crítico jornalista e diretor do Festnatal.
A produção executiva deste documentário esta a cargo de Valério Andrade, crítico jornalista e diretor do Festnatal.

O cineasta carioca ressalta que o prioridade “máxima” é que a primeira exibição pública seja no RN, “pelo menos” em Natal e Mossoró.  “pelo menos”. O plano é lançar ainda em 2015, mas a data não foi definida. “Depois do lançamento, e antes de chegar ao circuito comercial, pretendemos fazer o circuito de festivais nacionais e internacionais. O cangaço é um tema internacional e continua atual, vide o filme ‘A Luneta do Tempo’, de Alceu Valença, que aborda o cangaço de forma lúdica e poética”


Em 2010, percorrendo o caminho de Lampião no RN e entrevistando aqueles que tinham historias inesquecíveis daquele junho de 1927, que o Rio Grande do Norte jamais esquecerá.
Em 2010, percorrendo o caminho de Lampião no RN e entrevistando aqueles que tinham historias inesquecíveis daquele junho de 1927, que o Rio Grande do Norte jamais esquecerá.

Ele destaca que, apesar de contar com apoio de instituições potiguares, grande parte do investimento é próprio. “Apostamos na repercussão do filme, por isso resolvemos rodar sem esperar por editais e captação via lei de incentivo. Tudo para não perder, como diz Iaperi, ‘o trem da história’. Essa memória da passagem de Lampião pelo RN ainda está muito impregnada nas pessoas, na paisagem, e através do cinema podemos compartilhar com um público maior”.
Yuno Silva – Repórter, jornal Tribuna do Norte, edição de 10 de abril de 2015
Colaborou: Cinthia Lopes – editora
Fonte:http://tokdehistoria.com.br/

O Combate das Caraíbas em Floresta Por: Cristiano Ferraz


O combate das Caraíbas, em Floresta foi travado entre Lampião e as forças volantes na quinta-feira dia 04 de fevereiro de 1926 às margens do riacho da maravilha, afluente do riacho do navio - nas divisas entre os municípios de Floresta e Betânia .
Participaram as volantes comandadas pelo Tenente Higino José Belarmino e Optato Gueiros contra o grupo de Lampião. Junto com Lampião encontrava-se entre outros o conhecido Manoel Pequeno (da fazenda Saco – na ribeira do riacho do navio) e seu grupo. Os cangaceiros se entrincheiraram no leito do riacho e em um serrote à margem deste emboscando a força em campo aberto.
O confronto teve a participação da força Nazaré composta por, Afonso de Sá Nogueira , Altino Gomes de Sá, Antônio Joaquim dos Santos (o famoso rastejador Batoque), Aureliano de Souza Nogueira (Lero), Aureliano Francisco de Souza (Lero Chico), Constantino Marcolino de Souza, David Gomes Jurubeba , Euclides de Souza Ferraz (Euclides Flor) , João Cavalcanti, João Domingos Ferraz, João Gomes Jurubeba, João Jurubeba de Sá Nogueira (João Gato), Joaquim Ferraz de Souza (Quinca Néo), Joaquim Francisco de Souza (Quinca Chico), Manoel de Souza Ferraz, Manoel Neto (Anspeçada), Pedro Gomes de Lira, Pedro Marcolino e Pedro Tomaz de Souza Nogueira.
 Imagens atuais do local do combate das Caraíbas em Floresta
O tiroteio durou até o final da tarde quando lampião se retirou do local levando seus mortos (acredita-se que em número de cinco) sepultando-os na caatinga entre o local do combate e o poço do ferro e deixando entre os volantes um saldo de pelo menos três baixas fatais, os soldados Aristides Panta da Silva (Este de Floresta), Benedito Bezerra de Vasconcelos e Antônio Benedito Mendes.
Os soldados mortos foram sepultados na margem esquerda do riacho da maravilha próximo ao local onde o riacho do Jacaré se une a este . O riacho da maravilha é a divisa entre os municípios de Floresta e Betânia.

No combate saíram feridos o Tenente Higino no braço, Manoel Neto no braço direito, Antônio Joaquim dos Santos (Batoque) na perna, João Cavalcanti, Altino Gomes de Sá, João Pereira de Souza e João Pinheiro Costa.


Mapa com a movimentação do combate

Local onde foram sepultados os soldados mortos

Em visita ao local tomamos conhecimento que durante o combate o boiadeiro florestano Joaquim de Alencar Jardim (Quinca Jardim) retornava a Floresta após a venda de uma boiada. Antônio Ferreira, que brigava no serrote no momento, sabendo da passagem deste pelo local o esperou com mais dois cangaceiros na sombra de um umbuzeiro (conhecido como umbuzeiro do Marçá – ou Marçal) abordando-o para lhe pedir dinheiro.

Quinca Jardim naquele momento se acompanhava de Joaquim Serafim (conhecido como Joaquim Grande do Rancho dos Homens) e mais duas ou três pessoas. Joaquim Grande então disse a Antônio Ferreira que Quinca Jardim não tinha a quantia pedida pois vendera a boiada mas não recebera o pagamento. Antônio Ferreira se contentou com a resposta sem saber que o dinheiro do pagamento da boiada estava no bornal que Joaquim Grande carregava a tiracolo.

Marcos de Carmelita, Manoel Serafim, João de Sousa Lima e Cristiano Ferraz, precursores do Cariri Cangaço Floresta 2016 !
Dois dos outros acompanhantes de Quinca Jardim disseram a Antônio Ferreira que um dos cangaceiros que o acompanhava tomara o pouco dinheiro que estes carregavam. Antônio Ferreira então perguntou quem pegara o dinheiro e o mandou devolver. O cangaceiro o fez embora queixando-se do trabalho ingrato onde era obrigado a devolver o dinheiro ganho.
Menos de um ano após, no final do ano de 1926 Lampião mataria 129 reses de Quinca Jardim na Barra do Juá por não ter recebido dinheiro após um pedido (acredita-se que um bilhete). Isso, provavelmente aconteceu ao descobrir que fora enganado cerca de dez meses antes.
Comenta-se que apenas uma rês escapou porque este fato se deu no dia da morte de Antônio Ferreira no Poço do Ferro. Na ocasião lampião se encontrava na região (Poço do Ferro – Pipocas – Rancho dos Homens) preparando-se para dar uma brigada com Ildefonso Ferraz do Curral Novo. Com a morte de Antônio Ferreira Lampião teve que ir às pressas ao Poço do Ferro para sepultar o irmão, morto pelo companheiro Luiz Pedro (do retiro) em um disparo acidental.

Cristiano Ferraz
Pesquisador - Recife, Pernambuco


E de 25 a 28 de julho de 2015;
 Cariri Cangaço Piranhas !


Depois de Princesa Isabel, chega o desafio de Piranhas

Manoel Severo, curador do Cariri Cangaço

Quando sou provocado a refletir sobre os resultados alcançados por este empreendimento coletivo chamado Cariri Cangaço, meu coração se enche de gratidão e uma certeza: Nada poderá deter um trabalho sério, com objetivos nobres; planejamento, determinação, zelo e acima de tudo,transpiração, muita transpiração. Alguns desavisados imaginam que no Cariri Cangaço existem "varinhas de condão", a esses esclareço: Nossa varinha de condão tem nome: Gratidão, Reconhecimento e Trabalho, muito trabalho.

Estamos às vésperas de realizarmos nossa V Edição do Cariri Cangaço Tradicional. Os olhos do Brasil se voltam para o cariri do ceará, nossa terra, nosso chão...Aqui, os pioneiros do projeto: Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Aurora, Barro, Porteiras e Lavras da Mangabeira, se preparam; de portas e corações abertos; para receber esta imensa nação de apaixonados pela história e pelo sertão, de todo o Brasil. Teremos entre os dias 22 e 27 de setembro de 2015 um dos maiores eventos sobre as temáticas nordestinas, já realizado.  


Já o Cariri Cangaço Princesa 2015, contemplando de forma inédita as cidades de Princesa Isabel e São José de Princesa; com o distrito de Patos de Irerê, na Paraíba e Floresta, com Nazaré do Pico, em Pernambuco; neste último mês de março de 2015, marcou sobremaneira a presença do Cariri Cangaço em mais três cenários importantes e vitais da historiografia do cangaço e do coronelismo nordestino. Desde os momentos embrionários alguns nos chamavam a atenção sobre as dificuldades em gestar tão ousada iniciativa:"problemas políticos, problemas de família, conflitos, dificuldades financeiras, isso e aquilo..." Entretanto isso é muito pouco para deter nossa inabalável determinação, e daí; transformar o sonho em realidade foi um pulo. O Cariri Cangaço Princesa se configurou como um extraordinário exemplo de trabalho em equipe, articulação, persistência e coragem. Foi um de nossos maiores e significativos eventos.

Serenidade, zelo, reconhecimento. Passo a passo cada detalhe e cada momento de nossos empreendimentos são pensados com a responsabilidade de quem administra um evento e uma marca que agora já pertencem ao Brasil. Antes mesmo de setembro chegar mais um novo e encorajador desafio: A terceira edição do Cariri Cangaço no estado das Alagoas agora no próximo mês de julho. Às margens do Rio São Francisco,  a bela e majestosa Piranhas se prepara para ser invadida; como o foram, Princesa Isabel, São José e Nazaré do Pico. Ao Cariri Cangaço Piranhas 2015 estaremos agregando pela primeira vez o estado de Sergipe, com a chegada do Cariri Cangaço a Poço Redondo, berço e amor eterno de Alcino Alves Costa.


Muitos outros desafios virão... Muitas vezes me perguntam o que move todo esse trabalho, respondo com humildade: "O Cariri Cangaço é movido por Paixão e Entusiamo por tudo que faz; acreditando na vida, nas pessoas, buscando com harmonia unir talentos e multiplica-los na direção de construir uma bonita história. É isso que estamos fazendo , e vamos fazer ainda por muito tempo, enquanto houver fôlego"

Na verdade, não medimos esforços para fazer do Cariri Cangaço, antes mesmo de um evento científico ou de aprofundamento, de um seminário, simpósio ou conjunto de visitas técnicas e acadêmicas; um grande e precioso Encontro de Amigos, isso faz tudo valer a pena... Todos com um sentimento comum: O Amor à nossa Raiz ! Valeu Brasil; vamos em frente.

Manoel Severo
Curador do Cariri Cangaço
Fortaleza, Ceará - Brasil 

Virgulino Lampião em Nova York Por:Sérgio Azol

A arte do Cangaço com Sérgio Oliveira, Atelie S-Azol

A Saphira & Ventura Gallery, de Nova York;  galeria norte americana que tem como uma de suas missões promover artistas brasileiros nos EUA e no mundo, estará promovendo neste mês de abril a Feira Internacional Art Expo, quando estará expondo para o público nova-iorquino o talento de artista brasileiros, dentre eles: Sérgio Oliveira do Atelie S-Azol.

O artista plástico potiguar, Sérgio Oliveira ; radicado em São Paulo há 20 anos; estará mostrando suas obras, telas da coleção Virgulino, na Feira Internacional Art Expo em Nova York na galeria Saphira & Ventura Gallery. O artista revela: "O foco do meu trabalho nos últimos 4 anos tem sido Lampião, o cangaço e a cultura popular do nordeste"; com uma arte contemporânea; pintura acrílica sobre tela, colagem e escultura, Sérgio espera mostrar a beleza das cores do sertão para o mundo.
Sérgio Oliveira - Atelie S-Azol e Virgulino nos EUA

"Essa parceria do meu ateliê com eles tem a finalidade de introduzir o meu trabalho da coleção Virgulino nos EUA, com a minha participação em 4 exposições, da galeria, e a participação em algumas feiras nos EUA e em outros países onde eles mantem parcerias com galerias locais.  Será uma excelente oportunidade para divulgar, através de meus quadros, a nossa cultura, o nosso povo e seus costumes mundo a fora. Estou muito feliz por isso, é uma conquista que sonhava a tempo." Ressalta Sérgio Oliveira.

Voltando dos Estados Unidos Sérgio Oliveira revela, "chegou a hora de sair do cômodo do lar e cair em campo para fazer algumas visitas pelo nordeste, será ainda mais enriquecedor. Desejo sentir a presença de Virgulino, pisar a terra que ele andou, ouvir histórias, ver objetos, quero dá mais autenticidade ao que estou produzindo".

Sérgio Azol é mais um convidado especial da Quinta Edição do Cariri Cangaço, quando setembro chegar, no Cariri do Ceará !

Antônio Silvino de Sérgio Dantas Por: Honorio de Medeiros


Em narrativa linear, atenta à lógica dos fatos históricos, Sérgio Augusto de Souza Dantas nos reapresenta a um Antônio Silvino cru, recortado do contexto mítico e inserido em sua dimensão humana, sem que restasse perdido tudo quanto o tornou um dos mais interessantes personagens da trindade básica que forjou a alma sertaneja – o cangaço, o misticismo, o coronelismo.

Louve-se a felicidade na escolha do “nome” de cada capítulo bem como o excerto que o acompanha, próprio para chamar a atenção do comprador desatento, em uma homenagem ao estilo jornalístico de outrora, e a indicar um texto enxuto, leve, de parágrafos curtos e bem encadeados. Chamam a atenção episódios trazidos a lume que por si só têm dimensão histórica, como a convivência entre Antônio Silvino e Gregório Bezerra, lendário líder comunista pernambucano, sua entrevista com Graciliano Ramos, e o assalto à Usina Santa Filonila na qual morreu Feliciana na flor da idade – crime do qual o cangaceiro jamais deixou de se arrepender. Aliás, qual teria sido o desfecho do embate entre Antônio dos Santos Dias e José Tavares de Melo, este, genro, aquele, pai de Teresa Tavares de Melo, pivô da questão? Qual teria sido o fim de cada um deles?

O Antônio Silvino que emerge do ótimo texto de Sérgio Dantas é um personagem emblemático: é o retrato nítido de uma saga que nos permite identificar e compreender os nexos causais que originam certa circunstância histórica – o período do cangaço – e até mesmo ir além, na medida em que também permite identificar o viés comum a entrelaçá-los, ou seja, a questão do Poder. Basta colocar esses retratos sobre a mesa e examiná-los com olhar crítico: Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Lampião; Coronel Zé Pereira, Coronel Isaías Arruda, Coronel Floro Bartolomeu; Pe. Cícero, Beato Zé Lourenço, Antônio Conselheiro... Tomando distância de qualquer tentativa de apreender o fenômeno a partir de uma explicação oriunda exclusivamente de fatos alusivos à posse da terra.

Aderbal Nogueira, Múcio Procópio, Sérgio Dantas, Ivanildo Silveira e Honório de Medeiros
Sérgio Dantas, Múcio Procópio, Manoel Severo e Ivanildo Silveira

É possível conjecturar se Sérgio Dantas vai aventurar-se em novos resgates ou cuidará de desbravar outras fronteiras. Sua obra tem sido, até agora, a fronteira entre um ciclo e outro no que diz respeito à literatura do cangaço. Esse ciclo por ele estudado até o momento está chegando ao fim. Já não é mais possível, até onde sabemos, ressalvada a possibilidade de documentos desconhecidos surgirem inesperadamente, prosseguir com a literatura elaborada a partir de relatos, fotos, testemunhos ou escritos, ou seja, fontes primárias. São poucos os sobreviventes e deles já se extraiu mais do que tudo. 

Os papéis estão virando pó, vítimas da ação inclemente do tempo e da incúria das nossas elites. Um outro ciclo está surgindo: a interpretação de todos esses dados, ou seja, uma literatura de tese, algo timidamente iniciado por Frederico Pernambucano de Mello com “Guerreiros do Sol”, através da criação do conceito de “escudo ético”.

A não ser que – e talento não lhe falta – resolva mergulhar com sua característica obstinação no jornalismo literário brindando-nos com alguma pesquisa onde sobrem indícios, mas, faltem provas – como de fato acontece nessa espécie literária - e, no entanto, seja possível povoar um texto com interrogações perturbadoras tais quais, por exemplo, as razões do estranho silêncio do Juiz e do Promotor de Mossoró em relação aos fatos que lá aconteceram em junho de 1927

Honorio de Medeiros, Mestre em Direito; Professor de Filosofia do Direito da Universidade Potiguar (Unp); Assessor Jurídico do Estado do Rio Grande do Norte; Advogado (Direito Público); Ensaísta. Pesquisador, escritor, Membro da SBEC.
Conselheiro Cariri Cangaço.
FONTE:http://honoriodemedeiros.blogspot.com.br/

Carnaval, Cangaço e Sociedade Por: Verônica Daniel Kobs

A arte de Aldemir Martins

O Cangaço, em nossa História, tem função fundamentalmente social. Movimento de lutas, o “exército informal” de Lampião tinha vestimenta específica: “Certa vez Lampião chegou em uma cidade sergipana, entrou em um armazém e aceitou a proposta do dono do local para pesar toda a roupa e equipamentos que ele tinha pelo corpo. Chegou a quase 30 quilos, isto que ele tirou o fuzil e os depósitos [cantis] de água” (MELLO [1], citado em MILAN, 2014). 

Inúmeras são as referências dos críticos e historiadores ao fato de a roupa dos cangaceiros servir como espécie de farda ou armadura, o que enfatiza a importância da roupa como artefato bélico. Consequentemente, é possível ampliar a valorização dos cangaceiros, que não apenas lutavam e combatiam. Mais do que isso, eles eram protagonistas de duelos ritualísticos, nos quais a roupa era um acessório essencial e de importância estratégica.


Professora Verônica Daniel Kobs

São vários os estudos que, partindo da indumentária típica do Cangaço, associam os cangaceiros aos cavaleiros da Idade Média e até aos samurais. Sem dúvida, a comparação baseia-se nas batalhas incessantes e sangrentas e ao espírito guerreiro dos combatentes. Entretanto, muito além do aspecto bélico, está o social, que reforça a relação do Cangaço com os movimentos insurgentes (Canudos, Contestado, Balaiada...). E é exatamente nesse ponto, entre o combate e o social, que o movimento protagonizado por Lampião se amplia e se torna sinônimo de “luta social”. Os cangaceiros assumem a voz dos marginalizados[2] e lutam contra a injustiça. Contemporaneamente, as favelas reúnem essas características, que são como verdadeiros estigmas para boa parte da população. Evidente que isso remonta ao passado, com ênfase às décadas de 1930 e 1960: “No auge da ditadura militar, o Governo Federal criou um órgão chamado Coordenação da Habitação de Interesse Social da Área Metropolitana do Grande Rio (Chisam), que tinha como objetivo principal acabar com todas as favelas da cidade num prazo máximo de dez anos” (MONTEIRO, 2008, p. 1).

O processo de remoção, longe de ser uma novidade da década de 1960, tinha um histórico anterior bastante considerável. Christina da Cunha, no estudo Histórias e memórias das favelas, lembra, por exemplo, a destruição do cortiço Cabeça de porco, já em 1893, e identifica o início da ação remocionista em 1937, na Era Vargas. O que ocorre, a partir de 1960, é a retomada do projeto político, sinal claro de adesão à concepção que orientou vários governantes, os quais encaravam as favelas como “aberrações”: “Segundo relatório oficial da Fundação Leão XIII, de 1968, as favelas eram ‘uma aglomeração irregular de subproletários sem capacitação profissional, baixos padrões de vida, analfabetismo, messianismo, promiscuidade, alcoolismo... refúgio para elementos criminosos e marginais, foco de parasitas e doenças contagiosas’” (MONTEIRO, 2008, p. 4).


Favelas por Marcio Torosi

Esse processo expõe o antagonismo e a dualidade social. A oposição é acirrada, maniqueísta e, justamente por isso, remete ao Marxismo, segundo o qual a sociedade é dividida em dois vastos campos inimigos, em duas grandes classes diametralmente opostas: “a burguesia e o proletariado” (MARX; ENGELS, 2008). “Ao esboçar em traços gerais as fases do desenvolvimento do proletariado, descrevemos a história da guerra civil, mais ou menos oculta, que se desenvolve no seio da sociedade existente, até ao momento em que esta guerra se transforma numa revolução aberta e o proletariado, derrubando pela violência a burguesia, implanta a sua dominação” (MARX; ENGELS, 2008).

Geograficamente, e também socialmente, o espaço favela concretiza essa divisão marxista, sobretudo se for levado em conta o fato de sua origem, já que o Governo buscava tirar os pobres do centro e transferi-los para os arredores, preconizando um processo de assepsia social nas grandes cidades. Dessa forma, em territórios completamente distintos, bem marcados e delimitados, grupos diametralmente opostos representam o poder hegemônico e os marginalizados. A partir do momento em que o Cangaço ganhou espaço, na mídia e na História, a revolução social (e também política e cultural) passou a contar com um poderoso aliado. O movimento exigia que o povo tivesse vez e voz, em consonância aos ideais do Modernismo, que, naquela época, repercutiram na Literatura, nas Artes Plásticas e também no Cinema (nesse caso, pelo projeto ainda embrionário e que, mais tarde, daria início ao Cinema Novo).


Glauber Rocha

Glauber Rocha, precursor do Cinema Novo, em Estética da fome, escreveu sobre os famintos e, nas palavras do artista, ecoaram as ideologias do Marxismo e também do Cangaço:

A fome latina, por isto, não é somente um sistema alarmante: é o nervo da sua própria sociedade. Aí que reside a trágica originalidade do Cinema Novo diante do cinema mundial: nossa originalidade é nossa fome e nossa maior miséria é que esta fome, sendo sentida, não é compreendida.(De Aruanda a Vida Secas, o Cinema Novo narrou, descreveu, poetizou, discursou, analisou, excitou os temas da fome: personagens comendo terra, personagens matando para comer, personagens fugindo para comer, personagens sujas, feias, escuras; foi esta galeria de famintos que identificou o Cinema Novo com o miserabilismo hoje tão condenado pelo Governo do Estado da Guanabara, (...).). (ROCHA, 2014)

É intrínseca a relação do texto de Glauber Rocha com a ideologia revolucionária, já que até mesmo a estratégia anti-humana e antissocial do governo carioca é denunciada por ele. Porém, as semelhanças vão muito mais além, porque associam a fome dos marginalizados à violência:

(...) o comportamento exato de um faminto é a violência e a violência de um faminto não é primitivismo. Fabiano é primitivo? Corisco é primitivo? A mulher de Porto das Caixas é primitiva?
(...) uma estética da violência antes de ser primitiva é revolucionária, eis o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado: somente conscientizada sua possibilidade única, a violência, o colonizador pode compreender, pelo o horror, a força da cultura que ele explora. Enquanto não ergue as armas, o colonizado é um escravo: foi preciso um primeiro policial morto para que o francês percebesse um argelino.O amor que esta violência encerra é tão brutal quanto a própria violência, porque não é um amor de complacência ou de contemplação, mas um amor de ação e transformação. (ROCHA, 2014)

De acordo com o cineasta, a violência é necessária, assim como é, também, proporcional à injustiça e à exclusão que a originaram. Para muitos, tal princípio é pessimista e desumano. No entanto, considerando a História, as características inerentes à humanidade e a divisão de classes, as palavras de Glauber Rocha servem apenas como constatação e é nesse sentido que o Cangaço pode ser considerado um movimento de luta pela transformação.


E foi justamente essa associação que deu a base para o samba-enredo da Escola carioca São Clemente, que levou para a Avenida, em 2014, o universo da favela e também um pouco da História do Cangaço. Na sinopse do enredo, de autoria de Andre Diniz e Wladimir Corrêa, há referências que explicitam a comparação entre os cangaceiros e os moradores das favelas:

(...) seja bem vindo à favela da São Clemente, e conheça toda a dimensão da audácia humana! (SÃO CLEMENTE, 2014)
Quem somos nós? Herança do olhar de esperança dos negros enfim livres.A fé dos pobres soldados que foram a Canudos vencer o próprio espelho dos sem cortiço, excluídos da cidade que limpava-se... (SÃO CLEMENTE, 2014)
Como fizemos? Da necessidade! (SÃO CLEMENTE, 2014)
Exige mudança, refaz a esperança.E protagoniza teu próprio destino (SÃO CLEMENTE, 2014)

Nos trechos do argumento do samba-enredo, são vários os pontos de contato entre a favela e o Cangaço: “a audácia humana”, a exclusão causada pelos governos de Vargas e Lacerda, a referência aos insurgentes de Canudos e até mesmo a violência necessária e reativa (tal como apresentada por Glauber Rocha, em Estética da fome). Coerente com a sinopse, a letra da música faz menção à “gangorra da vida” (SÃO CLEMENTE, 2014), com a pergunta “De que lado está?” (SÃO CLEMENTE, 2014). A metáfora é bastante adequada, porque representa muito bem a dualidade e a diferença social, evidenciando a desigualdade como motivo para a injustiça e para a exclusão.


Comissão de Frente da Escola de Samba São Clemente

A estilização do cangaço pela Escola São Clemente atualiza o movimento e enfatiza o aspecto social dos cangaceiros. Sem dúvida, essa leitura não é a mesma que foi repercutida pelo discurso hegemônico e “oficial”, ao longo das décadas. A marginalização e a injustiça, que levaram muitas pessoas a buscarem no Cangaço um modo ilegítimo e paralelo de luta e transformação, foram ocultadas pelos fatos que a mídia enfatizava, na época de Lampião: invasões, saques, estupros e castrações (no melhor estilo maniqueísta, em que os cangaceiros representavam o Mal e o Governo e os militares representavam o Bem). Quase um século depois, essa concepção é confrontada e o Cangaço é lembrado e reverenciado pelo povo, que se identifica com várias coisas que verdadeiramente fizeram parte da formação ideológica de muitos cangaceiros, dos quais Lampião foi um dos mais célebres, e do movimento do Cangaço como um todo. E, nessa retomada, o traje típico do Cangaço foi escolhido para representar o valor daqueles que participaram ativamente do movimento:

Esses artefatos – chapéu de couro e punhal –, enriquecidos por outros como embornais, cartucheiras, coldres, perneiras, cantis, luvas e alpercatas impõem-se como imagens de uma arte de síntese que refletem o orgulho de ser sertanejo, isto é, habitante dos sertões. As cartucheiras carregavam a munição, os coldres permitiam levar as pistolas a tiracolo, os cantis garantiam a água para a sobrevivência, os embornais levavam víveres, remédios, ferramentas; quanto às luvas, perneiras e alpercatas protegiam o corpo dos espinhos e garantiam a sobrevivência na caatinga. (SILVA, 2014)

Evidente que, em tantas batalhas, apenas tenacidade, patriotismo, força física e uma boa dose de estratégia (visível pela autossuficiência que o traje permitia, por reunir tudo o que era necessário para os confrontos) ajudavam. Mas não bastavam. Era preciso também buscar a proteção que a religiosidade e o misticismo podiam oferecer: “Os amuletos da sorte dos cangaceiros têm origem na antiguidade (...). Alguns chegavam a ter o signo de Salomão por todo o corpo. Ele é uma estrela de seis pontas – símbolo de Israel – e significa proteção. (...). Normalmente os cangaceiros (...) adotaram as estrelas de quatro, seis ou oito pontas.” (MILAN, 2014). Na literatura, há inúmeras referências ao poder de proteção da estrela de oito pontas, que “simboliza os mil raios da macambira, essa bromélia temível, com espinhos de ida e volta nas hastes longas de ouriço, uma aliada imemorial contra todo invasor” (SILVA, 2014). Por mais poderosos que fossem, os amuletos nunca pareciam ser suficientes[1]. Eram muitos os que faziam parte da crença mística dos cangaceiros e, de certa forma, se aliavam à devoção religiosa, representada pela figura de Padre Cícero.

Na referência que a São Clemente fez ao Cangaço, o chapéu foi elemento fundamental, pela sua tipicidade e por sua força simbólica:

O chapéu meia-lua de couro, com uma estrela no meio, lançado por Virgulino, hoje é o símbolo do nordeste brasileiro. O chapéu, que tem a aba virada naturalmente para cima quando se cavalga, durante o período do cangaço, serviu de suporte de arte (na aba iam alguns enfeites) e também de alerta: nenhum cangaceiro poderia correr o risco de ser surpreendido em uma emboscada, por isso não poderia andar com a aba abaixada escondendo os olhos. (MILAN, 2014)

Bateria da Escola São Clemente, no desfile do Rio de Janeiro, em 2014. As roupas dos participantes fazem alusão aos símbolos do Cangaço, com destaque ao chapéu típico do movimento.
Lampião, em traje e chapéu típicos, representativos do Cangaço
Foto de Benjamim Abrahão


Com base nas imagens e na passagem transcrita acima, é possível compreender que, tanto para o Cangaço quanto para o povo (no samba-enredo representado pelos moradores das favelas), o chapéu usado pelos cangaceiros é muito mais que um acessório. Ele representa o estado de alerta (para não se deixar surpreender) e também a coragem (para ver o inimigo sempre de frente). E ambos garantem a sobrevivência.

Referências: 
MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto comunista. Disponível em:
. Acesso em: 13 jun.
2008.  
MILAN, P. A moda de Lampião. Disponível em:
<http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1033232>. Acesso em: 27 mai. 2014.
MONTEIRO, M. Fantasma exorcizado. Disponível em:
com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?from_info_index=21&infoid=8&sid=7>.  Acesso em: 27 jul. 2008.
ROCHA, G. Uma estética da fome. Disponível em:
nas/leituras_gg_cinenovo.php>. Acesso em: 15 abr. 2014.
SÃO CLEMENTE. [Sinopse e samba-enredo do GRES São Clemente – 2014]. Disponível em: . Acesso em: 11 mar. 2014.
SILVA, E. Q. R. e. Entre o chapéu estrelado e o punhal: o imaginário do cangaço em terras brasileiras. Disponível em:
. Acesso em: 27 mai. 2014.

[1] Vários textos mencionam também a importância de outros três símbolos: a flor-de-lis, símbolo de pureza; a cruz de malta e a cruz “oito contínuo deitado”. (Cf. MILAN, 2014)

Verônica Daniel Kobs
* Professora de Imagem e Literatura no Mestrado em Teoria Literária da Uniandrade e Professora de Língua Portuguesa nos Cursos de Letras da FAE e da FACEL. 


[1] Francisco Pernambucano de Mello, autor do livro Estrelas de couro: a estética do Cangaço.
[2] O termo está sendo usado, aqui, como sinônimo de “excluídos”, dos que ficam “à margem” da sociedade.